29 janeiro 2010
Cara de pau demagógica
Consta que no parlamento hoje, Francisco Louçã afirmou que «os dez maiores investidores da bolsa ganharam cinco mil milhões no ano passado sem pagar um cêntimo de impostos». De igual modo, há poucos dias, a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda fez um comunicado em que afirmou [negritos meus]:
«Ora, as dez pessoas cujos patrimónios imobiliários se valorizaram em 5 mil milhões de euros, em 2009, teriam que pagar mil milhões de imposto se tivessem comprado e vendido as acções nesse ano e se houvesse um imposto mínimo, e não pagarão nada se se mantiver a situação actual. O rigor fiscal financiaria dois anos de acesso ao subsídio de desemprego para todos os que dele precisam para viver. O governo preferiu beneficiar dez especuladores.»
Esta subtil qualificação é o gato escondido com o rabo de fora. A verdade é que não ocorreram mais-valias taxáveis ao abrigo dos códigos do IRS e IRC, que embora com uma taxa de 10%, já taxam mais-valias detidas por menos de 12 meses. Se o governo tivesse implementado o planeado, a taxa passaria para 20%, mas as “mais-valias” em causa (não realizadas), permaneceriam isentas. Uma mais-valia só é cobrável no momento da venda. Não havendo venda, não há mais-valia.
Isto é fácil de entender. Mas o disparate ainda é maior, na medida em que dificilmente se concebe a possibilidade de que as transacções pudessem realmente ocorrer no prazo de 12 meses. O volume total anual de transacções na Euronext Lisboa foi de 31,7 mil milhões de euros. Tendo a valorização da capitalização total das acções ali transaccionadas subido 51,8%. Assim, as referidas 10 pessoas teriam de “passar” pelo mercado cerca de 15 mil milhões de euros, cerca de metade do volume total anual. A pressão vendedora seria brutal. Os preços provavelmente teriam de descer bastante. Os magnatas portugueses deixariam de ser donos das suas empresas. (acho que nem mesmo a CGD poderia intervir aqui para manter os “centros de decisão”).
O único ponto deste sound bite do Bloco é salientar o contraste entre os poucos dez ricaços e os muitos que “precisam”. Subjacente à afirmação está um conjunto de pressupostos: Que se o governo fosse atrás dos “dez”, eles não se iam embora; que se tentassem ir embora, bastaria expropriá-los; no fundo, que o que é teu é nosso.
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15 setembro 2009
Junk science II
No
DN:
«Em 2040, o mosquito da malária será uma visita habitual em muitas partes da Europa e dos Estados Unidos (EUA). Tudo por causa do aquecimento global. Mas esta não é a única doença que vai beneficiar com as alterações climáticas: a dengue, a desinteria e a cólera também vão ameaçar mais pessoas, alerta a cientistas norte-americana Rita Colwell, do Centro de Biotecnologia Marinha da Universidade de Maryland, nos EUA.»
Até meados do século XX existiu malária por todo o sul da Europa e por todo o território dos EUA. Na Europa, a erradicação deu-se por volta dos anos 30. Nos EUA, no início da década de 50. Não foram "alterações climáticas" que causaram esta alteração. Foram melhorias no saneamento, acções para limitar a propagação de mosquitos, secagem de pântanos e o uso de pesticidas como o DDT. Alguém acha mesmo que uma potencial subida de temperatura média em 1 grau centígrado até 2040 (worst case scenario, de acordo com os modelos SRES A2) irá reverter um século de melhoria de condições higiénicas na Europa?
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11 setembro 2009
Junk science
No
DD:
«Uma nova pesquisa mostra que os homens que têm os dedos anelares mais longos têm maior propensão para conduzir demasiado depressa ou para estacionar ilegalmente.
(...)
O mais recente estudo elaborado nesta matéria, que envolveu 77 homens condutores com uma média de idade de 38 anos, foi realizado na Alemanha, por investigadores da Universidade de Mainz.
Cada voluntário passou por um processo de digitalização da mão esquerda, no sentido de medir o comprimento dos dedos anelar e indicador. Depois, foram inquiridos acerca de todas as contra-ordenações que cometeram na estrada, nos últimos cinco anos.
Pouco mais de um terço dos voluntários registaram pontos de penalidade nas suas licenças de condução (entre um a 20), por contra-ordenações relacionadas com desde o excesso de velocidade a conduzir sob o efeito do álcool.
Segundo as conclusões divulgadas, os homens que tinham o dedo anelar mais longo tinham maior propensão para cometer contra-ordenações.»
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31 agosto 2009
Pensamento do dia
«Não há nenhuma entidade social com um bem que faça algum sacrifício para seu próprio benefício. Há apenas pessoas individuais, distintas, com as suas próprias vidas. Usar uma destas pessoas para o benefício de outras, usa-a a ela e beneficia as outras. Mais nada.» - Robert Nozick
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22 junho 2009
Comentarismo de ponta
No Jornal de Negócios,
referem-se os comentários de Roubini sobre as bolsas:
«As afirmações feitas hoje por Roubini, em especial no que diz respeito aos mercados accionistas, de par com o anúncio de piores previsões para a economia global por parte do Banco Mundial, estão a penalizar as bolsas na Europa e nos EUA.»
Espectacular análise de causa e efeito. Eu bem tentei na Reuters e em outras agências, mas só o brilhante analista do diário português conseguiu inferir esta relação...
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24 abril 2009
Uma questão de idade mental
Tenho de confessar uma coisa. Já defendi políticas proteccionistas. Tinha uns 12 ou 13 anos quando numa aula de história o professor apresentou as políticas mercantilistas de Colbert. Tive uma epifânia e achei a ideia genial. Mandar as nossas mercadorias para a estranja e receber ouro em troca era o caminho seguro para a riqueza, certamente. Entusiasmado, falei com o prof no fim da aula. Estávamos, afinal, em plena crise dos anos 80. FMI, desvalorização do escudo e tal. Estava ali a solução para todos os nossos problemas. Ou não?
O veterano professor, já a caminho da reforma, sorriu com ar compreensivo. Virou-se para mim e disse: «Pois... O problema é que se todos fizerem assim, ninguém ganha nada e ficam todos pior.» A resposta deixou-me algo desconcertado. Matutei no assunto algumas horas e lá concluí que o homem tinha razão. Bolas. A ideia até parecia boa.
Hoje em dia, quando os luminários representantes do povo, aqui e além mar, trazem de volta à discussão ideias proteccionistas, também sorrio, lembrando-me do velho prof e do
wishful thinking mercantilista. O problema, claro, é que eles não têm 12 anos de idade.
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02 abril 2009
Grandes Exemplos de Lógica
Cândida Almeida diz que não existiram pressões porque os procuradores estão habituados. Pinto Monteiro diz que não existiram pressões, mas "menciona" que vai averiguar "violações da deontologia".
(via JN)Etiquetas: alienação, caboom, dissonância cognitiva, falácias, gripe das aves, monstro de loch ness, oportunismo, roubalheira, self-delusion, tretas
13 fevereiro 2009
Métodos Socráticos
Mais depressa se apanha alguém com uma insuficiência epistemológica do que um portador de deficiência num dos membros inferiores.
Segundo o Jornal de Negócios, o primeiro-ministro terá citado «um estudo, segundo o qual os 10% que declaram maiores rendimentos em Portugal deduzem, em média, 300 euros, em despesas de Saúde, ao passo que os de rendimentos médio apenas “abatem” 80 euros. Em seu entender, esta situação “não é justa” e deve ser corrigida.»
Interrogo-me como quererá o primeiro-ministro “corrigir” a situação. O montante deduzido é proporcional aos gastos com saúde efectuados pelo contribuinte. Os contribuintes que deduzem menos também gastam menos. Vão ao Serviço Nacional de Saúde. Que é pago com os impostos dos primeiros, que dada a progressividade dos escalões, até pagam disproporcionalmente por serviços que não usam ou usam menos (daí deduzirem mais no IRS). Este é o resultado directo do sistema fiscal que temos, que é progressivo e redistributivo. Uma “correcção” aqui significa uma de duas coisas: Ou os contribuintes de escalões inferiores passam a gastar mais em saúde, fora do SNS (algo contraditório com o propósito do dito sistema), ou então os contribuintes dos escalões superiores passam a deduzir menos (o que se traduz simplesmente num aumento de impostos).
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21 janeiro 2009
Análise de grande nível
Em
artigo de opinião no sítio da SIC, Luis Costa Ribas afirma que o presidente cessante dos EUA, George W. Bush, foi o "pior de sempre", avançando depois com uma (tentativa de) fundamentação. Não é que eu seja um admirador de GWB (de todo, como já tive oportunidade de escrever, há cerca de um ano,
aqui e
aqui), mas a argumentação de Costa Ribas é de uma pobreza embaraçosa.
Em todo o artigo, há
uma queixa crítica objectiva: A questão da invasão do Iraque. E mesmo aqui, o argumento é acessório e toldado pelo óbvio
dislike pessoal de Costa Ribas por GWB. Ora, embirrações todos podem ter; não servem muito é para constituir "análise política".
As
gaffes, personalidade e religiosidade de uma pessoa não são bases para julgá-la politicamente. Especialmente para julgar o seu mandato presidencial como "o pior de sempre". (Uma questão não menos importante é a verdade histórica: Houve presidentes americanos que eram autênticos
gangsters.)
Há muitas críticas que podem ser feitas a GWB que justificam que seja acusado de ter sido um péssimo presidente que cometeu muitos erros, alguns muito graves. Costa Ribas não refere nem uma. Isto só mostra que a lição não foi aprendida. Para muitos "analistas políticos", existe alguma dificuldade em perceber o que é política.
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14 janeiro 2009
Sete pecados mortais na análise do myZonCard
Desde a decisão da Autoridade da Concorrência de suspender a campanha myZonCard, da Zon Multimedia, muito tem sido escrito sobre o assunto. Deixando de lado aspectos como a justiça de legislação “anti-trust” em mercados sem barreiras políticas à entrada, uma observação breve do que foi escrito em defesa da decisão provisória, bem como do teor da queixa apresentada, mostra que estas assentam em argumentos que tipicamente padecem de (pelo menos) sete erros analíticos.
Erro #1: A promoção da Zon “inunda” o mercado com “milhões e milhões” de bilhetes à borla.
A promoção é pessoal e intransmissível, sendo destinada apenas aos titulares dos contratos. Face à demografia da clientela da TV Cabo, a quem se destina a promoção, o impacto previsto pelas pessoas que incorrem neste erro é substancialmente sobrestimado. 70% dos espectadores de cinema tem menos de 35 anos de idade. 54% são estudantes (e são estes os que vão mais regularmente ao cinema). É portanto razoável assumir que a maior parte destes não é titular de um contrato de TV Cabo. Dos restantes, muitos serão casais, possivelmente com filhos, gerando portanto mais bilhetes para além do grátis, elevando o preço efectivo. Por fim, como apenas cerca de 20% dos portugueses vai ao cinema regularmente, representando a maior parte dos bilhetes, conjugando com os dados anteriores, é notório que a maioria dos clientes da TV Cabo não vai ao cinema. Das duas uma: Ou não usarão o cartão, ou então usam e geram receitas adicionais para a Lusomundo (pelo menos alguns irão acompanhados, e outros tantos comprarão pipocas e/ou bebidas nos bares). Logo, o impacto provável até será (ou seria) positivo para o mercado como um todo.
Erro #2: A promoção da Zon é “dumping”.
“Dumping” implica o fornecimento de produtos abaixo do preço de custo. As salas de cinema têm um custo marginal reduzido, tendendo para zero (ou totalmente variabilizado como percentagem das receitas). A promoção só está disponível para certos clientes, com uma antiguidade mínima como cliente e apenas enquanto permanecerem como tal. Existem ainda outros factores para determinar o preço efectivo por espectador: Preço pago por acompanhantes não titulares de cartão, pois a maior parte das pessoas não vai ao cinema sozinha, bem como receitas adicionais (pipocas, bebidas, etc). Adicionalmente, os preços pagos pelos serviços da TV Cabo têm um custo significativo, regular, independentemente do uso do cartão. É provável que exista alguma compensação desta à Lusomundo Cinemas pelo acesso aos filmes. Logo, a promoção é na verdade “bundling”.
Erro #3: A Lusomundo é monopolista.
A Lusomundo Cinemas é o maior operador nacional, com cerca de metade dos espectadores/receitas. Em termos de salas, a Lusomundo Cinemas tem uma quota inferior, pois o mercado de exibição, para além das cadeias de cinemas, conta também com salas municipais e pequenos cinemas independentes (cada vez menos, é verdade, por falta de viabilidade económica, não por práticas predatórias dos líderes de mercado; muitas se calhar são subsidiadas). Este peso no mercado não constitui de modo algum um monopólio.
O cinema não é um recurso escasso e as barreiras à entrada no mercado são baixas, dependendo essencialmente de investimento de capital localizado (local e equipamento), acessível a qualquer investidor com vontade. O peso da Lusomundo neste mercado parece ser mais resultado de subinvestimento geral no mercado do que aspectos anti-competitivos. A abertura (ou aquisição) por parte da Lusomundo de novas salas nos últimos anos é o factor preponderante no aumento da sua quota de mercado (de 28 para 30 locais e de 158 para 206 salas, entre 2004 e 2008). No mesmo periodo, a UCI e NLC também cresceram (com aquisições, aberturas e aumento da rentabilidade). Os restantes players mantiveram ou definharam.
Erro #4: O negócio das salas de cinema é a venda de bilhetes para ver filmes.
Este erro é a razão pela qual Paulo Branco não é capaz de concorrer com a Lusomundo agora; quanto mais com a promoção… Há muito que a Lusomundo e as outras cadeias bem geridas perceberam que estão no negócio do entretenimento e da “experiência do cinema”. “Experiência” que é tipicamente social (em família ou com amigos), logo tendo a promoção um impacto muito menor nas receitas totais. Quem quer ver filmes pode vê-los em casa. Num sentido estreito, e óbviamente exagerado, os cinemas hoje em dia estão no negócio da venda de pipocas/bebidas, pois é delas que advém a maior parte dos lucros. É também expectável que muitos clientes que beneficiam da promoção aumentem a receita média por espectador por via das vendas nos bares.
Os cinemas são um negócio em que a localização é muito importante, daí a cada vez maior presença das maiores salas (multi-ecrã) em centros comerciais e de lazer. Mas a mera presença num desses locais pode não ser suficiente para o sucesso. Compare-se o (pelo menos aparente) sucesso de empresas como a Lusomundo, UCI e NLC com as falências dos cinemas Millennium (que, curiosamente, ou talvez não, também contavam com a gestão excelente de Paulo Branco).
Erro #5: A promoção da Zon só é possível por abuso de posição dominante.
O abuso de posição dominante pode materializar-se, neste caso, em subsidiação cruzada via “bundling”. As perdas incorridas no produto subsidiado têm de ser compensadas com rendas económicas no produto subsidiante. O exemplo da moda é a Microsoft com o Windows e o Internet Explorer: Oferece-se este último grátis, à custa de maiores receitas no primeiro possibilitadas pela sua quota de mercado “monopolista”. Ironicamente também se usa o exemplo do Windows e do Office, afirmando que a Microsoft tem receitas elevadas no Office, cujas vendas são potenciadas pelo “monopólio” do Windows, sendo este vendido mais barato do que poderia ser o caso, mas com receitas compensadas pelo outro. Esta aparente contradição entre o Windows ser mais barato ou mais caro do que devia, consoante o exemplo, existe porque a verdade é que a acusação de abuso de posição dominante por parte da Microsoft está algo mal contada (mas isso são outros quinhentos e não conta para este assunto).
No caso da Zon, o primeiro argumento seria que a TV Cabo está a abusar da sua posição no cabo para restringir a concorrência no mercado da Lusomundo. O erro deste argumento está no facto de não existirem rendas económicas a explorar no cabo. Alternativamente, poderia-se argumentar que a Zon estaria a abusar da sua posição na exibição para condicionar o mercado do cabo. Também aqui seria preciso demonstrar que o benefício marginal no cabo pela fidelização seria usado para compensar a alegada quebra de rentabilidade na exibição; e que de alguma forma esse benefício tinha suficiente peso para, à luz da legislação, distorcer o mercado do cabo. Inverosímil, especialmente porque a queixa foi apresentada pelos concorrentes da Lusomundo Cinemas e não da TV Cabo.
Erro #6: A promoção da Zon acabaria por restringir o mercado de cinema.
A Zon não tem interesse no desaparecimento da sua concorrência no mercado da exibição, na medida em que o seu negócio de distribuição, lucrativo e importante, depende dela também. Hipoteticamente, até lhe poderia interessar esse desaparecimento desde que tivesse uma rentabilidade maior na exibição que permitisse manter o nível de vendas na distribuição. Ora, isso seria muito difícil, ou mesmo impossível, se aceitarmos a ideia de que a promoção constitui abuso de posição dominante. Se existe subsidiação cruzada dos bilhetes de cinema por parte da operação de cabo, então a Lusomundo Cinemas não terá receitas para pagar à Lusomundo Audiovisuais. Logo, as receitas de distribuição ficam dependentes das outras salas. As tais que supostamente ela quer que desapareçam. Seria uma proposta que apenas resultaria na destruição de valor para os accionistas da Zon. Logo, inverosímil.
Acresce ao ponto anterior que o mercado não é homogéneo. Os clientes que vão ver os filmes “de qualidade” na Medeia não são os mesmos que vão ver blockbusters na Lusomundo. A ideia de que a Medeia não sobreviveria é curiosa. Se actualmente os filmes “de qualidade” não são rentáveis nas condições de exploração actuais, sendo subsidiados pelos blockbusters que a Medeia também exibe, isso não é argumento válido para defender que haveria uma restrição da oferta. Não há razão objectiva para que os preços de cinema tenham de ser iguais. A Medeia poderia (deveria) aumentar os preços para os filmes com menores audiências, para manter a viabilidade económica do negócio. Se o mercado não comporta esse aumento, então o mercado não comporta este tipo de filmes. Ponto. Não é legítimo colocar coercivamente uma “taxa escondida” sobre os restantes consumidores de cinema para preservar esse mercado inviável.
Erro #7: A Zon é a única empresa que pode fazer este tipo de promoção.
A Zon é uma holding; e cotada na bolsa. A Lusomundo e a TV Cabo são empresas diferentes, com estruturas de custos e salários para pagar. A ideia de que se pode queimar dinheiro numa delas para beneficiar a outra é portanto complicada. Além disso, nem sequer existe uma grande sinergia entre o negócio do cabo e o negócio da exibição. Pelo contrário, o cabo tem um efeito negativo na exibição.
O raciocínio por trás deste erro é parecido com o que é usado quando uma empresa compra outra a jusante na cadeia de valor, como se fosse um cliente cativo, ou uma a montante, para poder ser fornecida em melhores condições. Em mercados minimamente competitivos estes raciocínios raramente fazem sentido, pois a relação accionista acaba por reduzir pressão competitiva. Em suma: Se a promoção faz sentido, então faz sentido para quaisquer duas empresas, independentemente da relação accionista. Se não faz, então a concorrência não deveria preocupar-se, pois assim sendo ela não durará muito tempo.
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29 dezembro 2008
Poderes regulatórios
Diz o
conventional wisdom que vai por aí que é preciso aumentar os poderes do estado, das autoridades reguladoras, para impedir crises como a actual, supostamente despoletada pelo “capitalismo selvagem” do desregulado sector financeiro.
Vamos lá ver se nos entendemos: A solução passa por dar mais poderes a pessoas competentíssimas, como por exemplo Vitor Constâncio, para estas poderem antever potenciais problemas, anteriormente imprevisíveis, com instrumentos financeiros que, possivelmente, ainda não existem. As mesmas pessoas que nos últimos anos não detectaram problemas efectivos, anteriormente conhecidos, com instrumentos financeiros que existem há décadas. É isso?
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13 outubro 2008
Incongruências com piada
Pessoas que dizem ser social-democratas e que ficam claramente incomodadas quando alguém lhes chama socialistas.
Pessoas que insistem em comparar
libertarians com marxistas e depois ficam todas entusiasmadas com
medidas ao estilo da quinta proposta de Marx.
Pessoas de esquerda que rejeitam o marxismo mas que continuam a achar que o retorno do capital constitui exploração do trabalho e que tratam a globalização como uma espécie de conflito de classes entre países ricos e pobres.
Pessoas que dizem que as crises são uma criação conspiratória dos perigosos neoliberais para avançar a sua agenda liberalizadora mas que agora, perante uma crise, entusiasmam-se com a receptividade à sua agenda estatista.
Pessoas que consideram José Sócrates um perigoso traidor à esquerda por governar ao centro mas que estão de cabeça perdida com Barack Obama que, se eleito, ao centro governará (se calhar mais à direita que Sócrates, se é que se pode comparar).
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25 agosto 2008
Institucionalização da falácia
Claramente,
a falácia de João Marcelino faz doutrina no DN. Num artigo da edição de hoje, "
A derrota de Portugal na vitória da Europa", o auspicioso artigo sobre as
potências do eixo termina com um aviso à navegação:
«(...) o desporto retrata quase exactamente alguns outros índices económicos e sociais, e em todos Portugal anda pela cauda da União.
Esta situação deve ser um desafio ao Governo do País (...) O Estado tem de canalizar mais verbas para o desporto de alta competição, e para a preparação do ciclo olímpico.»
O(a) autor(a) do artigo também parece achar que mais dinheiro para os atletas vai melhorar "os índices económicos e sociais". Além de achar piada à falácia, também gosto da soberba de uma notícia de jornal que pontifica sobre o que o estado, isto é, quem paga impostos,
tem de fazer.
Mas a coisa não fica por aqui. A (suposta) notícia termina com um juízo de valor surpreendente, tendo em conta que não se trata de um artigo de opinião:
«Para desculpas e oportunismo tivemos em Pequim que chegasse. Os factos são conhecidos e Vicente Moura deve sair.»
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19 agosto 2008
Indicadores de sucesso
A gritante prova da falácia usada por João Marcelino (
aqui identificada) é que apesar dos meios disponibilizados pelo estado português para a preparação e participação olímpica, especialmente face ao passado, tivemos todos de testemunhar o
episódio do "de manhã só estou bem na caminha", o
episódio do "não sou muito dada a este tipo de competições" e o
episódio do "agora vou de férias ...
não vou aos 5000 metros, as africanas são fortes; não vale a pena lutar contra elas".
E no fim disto, ainda vem o secretário de estado dizer que
"os atletas são melhores a fazer desporto que a prestar declarações". Manifestamente, não são grande coisa em nenhuma das duas.
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11 agosto 2008
Causa ou Consequência?
Quando li a
coluna de João Marcelino no DN, onde escreve
«(...) ainda há muito para o Estado fazer pelo desporto no nosso país. Os resultados deste sector, queiram ou não alguns pançudos devoradores de livros e uísque, assumem-se como um importante índice de desenvolvimento.»
logo identifiquei a velha falácia da confusão de causas com consequências. Foi por isso irónico que imediatamente depois tenha encontrado o seguinte parágrafo
na coluna do João Miranda na mesma edição do jornal:
«Alguém anda a confundir as causas com as consequências. A tecnologia não produz físicos e matemáticos. Os físicos e os matemáticos é que produzem tecnologia. Os alunos portugueses têm hoje acesso a computadores baratos porque alguns dos melhores alunos americanos andaram durante décadas a estudar Física e Matemática. A tecnologia é o resultado de bons alunos. Não são os bons alunos que resultam da tecnologia.»
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01 maio 2008
A verdadeira escassez
Dizia Voltaire que o senso comum não é assim tão comum. E, de facto, perante o que se tem dito sobre os preços dos bens alimentares, em especial o arroz, podemos concluir que a escassez de senso comum é algumas ordens de grandeza superior à escassez dos primeiros.
Segundo o Jornal de Negócios, Zean Zeigler, que além de ter nome de guitarrista de rock psicadélico tem o sugestivo título de
«relator da ONU para o Direito à Alimentação», terá afirmado que o biocombustíveis são
«um crime contra grande parte da humanidade». Apesar de não achar que os biocombustíveis sejam grande ideia (mais ou menos no patamar do Microsoft Bob e do Fiat Multipla), creio que existem vários equívocos na ideia de que os aumentos de preços dos bens alimentares são causados pela produção de biocombustíveis.
Em primeiro lugar, à parte de algumas experiências com palha de arroz e outra biomassa resultante da sua produção, este alimento não é usado em biocombustíveis. Além disso, nem sequer se pode dizer que as
commodities usadas em biocombustíveis (essencialmente milho e cana de açucar, a que se juntam em menor volume
a soja, o côco e o girassól) tenham no arroz um substituto. Em segundo lugar, a subida do preço do arroz foi repentina, ao ponto de os preços
não se terem repercutido ainda no produtor. O arroz transaccionado e cujo preço mais que duplicou encontra-se no circuito de distribuição internacional (entre o produtor e os grossistas nacionais). Isto sugere que o problema não se deve nem à produção (os níveis são idênticos aos do ano passado) nem ao consumo. Tudo indica que houve um súbito fluxo de dólares para este mercado como refúgio da desvalorização desta moeda. Quem tinha dúvidas de para onde iria o dinheiro barato injectado pela Federal Reserve tem aqui uma potencial resposta.
Mas mais extraordinário ainda é a
multiplicidade de intervenções políticas neste mercado. Desde o
nanny state japonês que tem desencorajado a produção de arroz com o objectivo de mudar os hábitos alimentares no país até ao rigoroso oposto em países como a China, onde o governo subsidia o arroz para encorajar a sua produção e consumo. Também brilhante é a intervenção dos governos da Índia, Vietname e Cambodja, que confrontados com uma subida do preço do arroz resolveram restringir a oferta; uma receita económica digna de um qualquer aluno da Faculdade “Chapeleiro Louco” de Economia da Universidade do País das Maravilhas, onde tudo funciona ao contrário.
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08 abril 2008
Hating the good for being good
No Sábado passado fizeram cem anos sobre o nascimento de Herbert von Karajan, o maestro austríaco. O Público fez um artigo especial sobre o tema e convidou duas pessoas para dar a sua opinião sobre Karajan. Uma positiva e outra negativa. A negativa, de Pedro Boléo, é um destilar de veneno contra o homem, com as sempre obrigatórias referências à ligação de Karajan ao partido nazi, como se tal tivesse algo a ver com o seu mérito artístico. Vários dos meus artistas favoritos são ou eram de esquerda; isso não muda a minha opinião sobre o seu trabalho. Karajan era vaidoso. Provavelmente díficil, se não impossível, no trato. Egocêntrico. Tudo aquilo que uma cultura colectivista detesta.
A positiva, de Nuno Vieira de Almeida, é premonitória:
«(...) infelizmente nós por cá, liderados por opinion makers que não têm a menor autoridade para falarem, temos algum prazer em denegri-lo por uma série de razões extra musicais.»
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21 fevereiro 2008
Colectivismo Máximo
Retomando o assunto do Salário Mínimo, abordado
aqui e
aqui, é interessante verificar que um dos principais argumentos dos defensores desta medida é o facto de que a tendência de aumento do desemprego, prevista pela teoria, não ser necessariamente observada na prática. Na verdade, em virtude das barreiras legais aos despedimentos, a relação não é nem directa, nem homogénea:
- Quem já está empregado verá os seus rendimentos aumentarem. O máximo que pode ocorrer é a perda de competitividade do factor trabalho acabar por diminuir o nível de emprego a prazo. Mas será de facto um efeito difícil de medir e de isolar;
- Quem não está empregado verá a oferta de trabalho diminuir quase de imediato.
Este argumento é também usado sob outra forma. Os defensores do Salário Mínimo afirmam existirem situações em que o aumento da massa salarial dos trabalhadores é superior ao efeito do aumento do desemprego. Isto é, enquanto
classe, os trabalhores passam a receber uma maior fatia da produção, apesar do número de trabalhadores
individuais cujo rendimento diminui, ou passa a zero, também aumentar. O problema desta análise é a despersonalização do indivíduo ao ponto de ignorar os casos concretos. E o irónico é que quem faz este raciocínio normalmente acusa os adversários de "insensibilidade social".
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25 janeiro 2008
A Bushologia
(também postado n'O Insurgente)Uma pitada de desconfiança relativa aos Estados Unidos, enquanto símbolo do capitalismo, e uma dose q.b. de raiva a George W. Bush são os ingredientes certos para criar um prisma esquerdista através do qual se pode observar a América. De forma enviezada, claro. Julgar os Estados Unidos, em especial esta administração, torna-se assim uma ciência especial, com a sua própria base axiomática e epistemológica solidamente assente em coisa nenhuma e outras tretas. Uma “Bushologia”.
Não quer isto dizer que a administração Bush foi boa, ou sequer passável. Não foi. Foi uma bosta. Mas este meu juízo não se prende com o tipo de questões habitualmente apresentadas pelos bushólogos. Prende-se com o facto de que George Bush falhou redondamente nos três pontos principais em que fundamentou as suas campanhas em 2000 e/ou 2004:
- Uma redução do envolvimento externo. A célebre “humble foreign policy” de que Ron Paul está sempre a falar.
- A reforma do sistema de segurança social, com a adopção de contas individuais e o fim do esquema piramidal actual.
- A reforma do sistema fiscal, com a simplificação dos impostos federais sobre o rendimento e a sua progressiva substituição por impostos indirectos.
Pelo contrário, Bush acabou por protagonizar um dos maiores crescimentos do estado federal desde Roosevelt. Rivaliza com Kennedy e Johnson; e acaba por ser imbatível se limitarmos a análise apenas a presidentes republicanos. Isso seria suficiente para considerá-lo péssimo. Mas
on top, o senhor ainda consegue gastar perto de um trilião de dólares anuais armado em polícia do mundo.
Mas para os bushólogos isso não interessa. O que interessa é aplicar o tal prisma que vê tudo em função de vagas intenções e da glorificação do “estado infalível”, por um lado, e que só vê na América um suposto combate entre usurários especuladores e pobres desprovidos de cuidados de saúde, por outro. Os factos não interessam para nada. Bush aumentou brutalmente os gastos em educação, saúde e serviços sociais. Eu critico-o por isso, mas os bushólogos criticam-no por supostamente não o fazer.
Neste post no Kontratempos, Tiago Barbosa Ribeiro não percebe como se pode pensar em reduzir o estado federal. Sai-se com o velho lugar-comum dos milhões de americanos que “
não têm qualquer cobertura de saúde”.
Sobre isso já escrevi aqui. Mas vai mais longe e dá o exemplo de um veto de Bush em que supostamente ele
“recusou um programa que alargaria os cuidados médicos a crianças pobres”. O problema aqui é que o programa não era destinado aos pobres, constituindo antes uma expansão de cobertura a uma parte significativa das crianças na classe média. E é fácil ver isto. Na
notícia linkada, lê-se que o alvo seriam crianças “carentes”, mas que não tinham acesso ao programa Medicaid. Como este programa cobre cerca de 14% da população e o
limiar de pobreza está estimado em cerca de 12% da mesma, é fácil de ver que há alguma inconsistência na tese. E mesmo a pobreza nos EUA é uma assunto mal analisado: É que ao contrário da Europa, na América existe uma constante mobilidade social que faz com que as pessoas subam e desçam ocasionalmente à volta desse limiar. Na Europa a pobreza é um problema persistente, com as pessoas a dificilmente sairem dessa situação. Apesar do “estado social”.
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20 dezembro 2007
Entendimento mínimo II
Tem muita piada o
Daniel Oliveira acusar o João Miranda de "transformar ideologia em ciência",
comparando com o marxismo, e depois apresentar como suporte à sua posição favorável ao salário mínimo as ideias de duas pessoas (os
ladrões de bicicletas João Rodrigues e Nuno Teles) que são marcadamente influenciadas pelo marxismo. Também é cómico dizer que o outro lado num debate usa "argumentos de autoridade" e depois apresentar meia-dúzia de "prémios nobel" como contra-argumento. Além da escorregadia linguagem usada pelo João Rodrigues, como a afirmação de que "o salário mínimo não provoca
necessariamente desemprego",
já abordada pelo BZ, os subtractores de velocípedes omitem dos seus argumentos, convenientemente, quais são os factores que explicam a disparidade observada no crescimento dos salários face ao crescimento da produtividade. Esta disparidade é referida por eles como uma razão para aumentar o salário mínimo e assim "reequilibrar" a relação de forças entre trabalho e capital. Argumento mais marxista seria difícil.
O primeiro factor, e mais directo, é que a globalização aumenta a concorrência no "factor trabalho", ultrapassando distâncias geográficas. Trabalhadores não-qualificados em países remotos oferecem os seus serviços a uma fracção do custo local. Isso deprime o crescimento real dos salários; mas não
necessariamente (se ele pode usar, eu também posso) do nível de vida. Hoje em dia, uma família "proletária", mesmo que tendo um vencimento a preços constantes que subiu menos do que poderia potecialmente ter subido, tem acesso a um leque de bens de lazer e qualidade de vida que há trinta anos tinham um custo proibitivo.
O segundo, embora menos directo é muito mais relevante; é que o aumento de produtividade não surge do nada. É tipicamente socialista assumir as coisas como dados adquiridos e partir daí para uma "redistribuição mais justa"... O aumento de produtividade passa geralmente por uma maior aplicação de capital. Por arrasto, esta aplicação leva a um aumento da especialização e formação dos trabalhadores, daí que estes se tornem mais valiosos no mercado de trabalho. Mas não é com essa finalidade que os investidores disponibilizam capital. O objectivo de um investimento é obter um retorno adequado ao risco associado ao projecto. Esse retorno é ele próprio um preço de mercado. Se um projecto não tiver perspectivas de permitir o retorno desejado, os investidores não disponibilizarão o capital.
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