08 Maio 2008
Nas encruzilhadas do Mississippi
Robert Johnson nasceu em Hazlehurst, no Mississippi, no dia 8 de Maio de 1911, há exactamente 97 anos. Nasceu com o nome Robert Leroy Dodds, pois a sua mãe havia entretanto casado com um homem que não era seu pai, e que por isso sempre lhe guardou ressentimento. Só soube o nome do seu verdadeiro pai aos 17 anos de idade; e foi a partir dessa altura que Robert começou a frequentar as chamadas juke-joints, onde conheceu o seu grande mentor, Son House, uma lenda dos Delta blues. Mudou de nome, para aquele com que se tornou conhecido, e passou boa parte do resto da sua vida a tentar descobrir o paradeiro do pai. Se conseguiu encontrá-lo ou não, é coisa que Robert nunca comentou com ninguém. O facto é que cada vez que uma nova pista surgia, ele fazia-se à estrada nessa direcção. Walking Blues, um dos seus temas mais conhecidos e tocado por outros artistas, trata desse espírito vagabundo tão próprio dos blues. Vemo-lo aqui em versão de Eric Clapton.
Entre 1936 e 37, Robert Johnson fez todas as gravações da sua vida. Um total de 29 músicas, com 41 faixas, onde obviamente existem takes diferentes dos mesmos temas. Destas 29, viu 11 singles de 78 rotações serem editados antes de morrer, altura em que foi distribuido o décimo-segundo, e último, pela editora Vocalion. As gravações foram feitas, como várias outras do género, em quartos de hotéis. Foi no Texas, e o técnico responsável foi Don Law, um importante produtor de música popular americana, embora, curiosamente, nascido em Inglaterra. Paternalista, estava convencido que Robert era um labrego que nunca havia saido das plantações de algodão... No entanto, o seu estilo único viria a ser uma influência marcante para múltiplos guitarristas. Neste video podemos ver Roy Rogers falar sobre Robert Johnson e tocar outro clássico: Rambling on my mind.
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05 Maio 2008
Abutres
No contexto das notícias catastrofistas, quase “fim dos tempos”, sobre o aumento do custo de vários bens alimentares, a campanha do Banco Alimentar contra a fome deste fim de semana teve especial relevo nas notícias e tudo indica que foi muito bem sucedida. Quase duas dezenas de milhar de voluntários e, presumo, centenas de milhar de contribuintes (no sentido real do termo), deram forma a uma enorme iniciativa de apoio a quem passa necessidade. O que acho realmente extraordinário é o facto da maior parte destas pessoas não questionar o facto de apesar de quase metade de tudo o que produzem ser consumido pelo estado, alegadamente “social”, continuem a persistir situações de carência que apenas são resolvidas por iniciativas fora desse estado. Se o questionam, o facto é que não agem em consonância.
As décadas vão passando, o peso do estado vai aumentado e vão subindo de tom as queixas sobre aumentos das diferenças entre ricos e pobres, ou da dimensão das “bolsas” de pobreza. A conclusão, evidente, de que algo está errado no modelo do estado social nunca é atingida. As receitas passam sempre por mais intervenção, mais estado e menos escolha individual. Note-se que o problema é rigorosamente o mesmo nas outras funções, supostamente nucleares, do estado. Quanto mais cresce a carga fiscal, piores os serviços de saúde prestados, com enormes listas de espera e racionamento; menos formados são os alunos e mais desacreditada fica a escola pública; mais desacreditadas ficam a justiça e a segurança pública. As boas intenções, que proverbialmente vão pavimentando a estrada daqui ao inferno, essas nunca são questionadas.
A razão para esta passividade é filosófica. O humanitarismo, a ideia de que o padrão moral é o nobre sacrifício e de que a mais alta virtude que alguém pode almejar é viver para ajudar os outros são responsáveis por isto. Como escreveu Isabel Paterson, quando esta ideia se junta ao internacionalismo e à vontade de “ajudar a humanidade”, estão reunidas as condições para a catástrofe. Condicionadas pelo padrão moral altruista, as pessoas são incapazes de perceber as implicações efectivas dessa filosofia de subordinação da produção à ajuda a terceiros (quando devia ser justamente ao contrário) ou nem sequer de julgar os “grandes humanitários” pelos resultados e não pelas intenções (algo que parece óbvio).
Desta forma, as pessoas acabam por não ver o verdadeiro papel dos estadistas responsáveis pela situação. Não vêm que estes, ao defender as suas boas intenções para o estado “social”, acabam por comportar-se como abutres que se alimentam (espiritualmente, quando não literalmente) da miséria alheia.
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03 Maio 2008
Cult of personality
Fazem hoje 20 anos sobre o lançamento do álbum de estreia dos Living Colour. Esta banda era única em muitos sentidos: Uma banda de heavy metal com músicos negros, coisa nunca vista, bem como o extraordinário guitarrista Vernon Reid, uma fusão da "escola" de Jimi Hendrix com a técnica metal... O álbum chamava-se Vivid e continha Cult of personality, que podemos ver aqui em baixo.
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01 Maio 2008
A verdadeira escassez
Dizia Voltaire que o senso comum não é assim tão comum. E, de facto, perante o que se tem dito sobre os preços dos bens alimentares, em especial o arroz, podemos concluir que a escassez de senso comum é algumas ordens de grandeza superior à escassez dos primeiros. Segundo o Jornal de Negócios, Zean Zeigler, que além de ter nome de guitarrista de rock psicadélico tem o sugestivo título de «relator da ONU para o Direito à Alimentação», terá afirmado que o biocombustíveis são «um crime contra grande parte da humanidade». Apesar de não achar que os biocombustíveis sejam grande ideia (mais ou menos no patamar do Microsoft Bob e do Fiat Multipla), creio que existem vários equívocos na ideia de que os aumentos de preços dos bens alimentares são causados pela produção de biocombustíveis.
Em primeiro lugar, à parte de algumas experiências com palha de arroz e outra biomassa resultante da sua produção, este alimento não é usado em biocombustíveis. Além disso, nem sequer se pode dizer que as commodities usadas em biocombustíveis (essencialmente milho e cana de açucar, a que se juntam em menor volume a soja, o côco e o girassól) tenham no arroz um substituto. Em segundo lugar, a subida do preço do arroz foi repentina, ao ponto de os preços não se terem repercutido ainda no produtor. O arroz transaccionado e cujo preço mais que duplicou encontra-se no circuito de distribuição internacional (entre o produtor e os grossistas nacionais). Isto sugere que o problema não se deve nem à produção (os níveis são idênticos aos do ano passado) nem ao consumo. Tudo indica que houve um súbito fluxo de dólares para este mercado como refúgio da desvalorização desta moeda. Quem tinha dúvidas de para onde iria o dinheiro barato injectado pela Federal Reserve tem aqui uma potencial resposta.
Mas mais extraordinário ainda é a multiplicidade de intervenções políticas neste mercado. Desde o nanny state japonês que tem desencorajado a produção de arroz com o objectivo de mudar os hábitos alimentares no país até ao rigoroso oposto em países como a China, onde o governo subsidia o arroz para encorajar a sua produção e consumo. Também brilhante é a intervenção dos governos da Índia, Vietname e Cambodja, que confrontados com uma subida do preço do arroz resolveram restringir a oferta; uma receita económica digna de um qualquer aluno da Faculdade “Chapeleiro Louco” de Economia da Universidade do País das Maravilhas, onde tudo funciona ao contrário.
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30 Abril 2008
Someone else's mojo is also working
Fazem hoje 25 anos que faleceu Muddy Waters. McKinley Morganfield, era este o seu verdadeiro nome, nasceu em Rolling Fork, no Mississippi, a 4 de Abril de 1915. Cresceu em Clarksdale, uma pequena cidade rural, também no Mississippi, onde trabalhava no campo. Mas as suas ambições iam mais além. Os últimos anos da adolescência de Muddy Waters, alcunha que havia entretanto adquirido, viram-no a dirigir uma destilaria de whiskey caseiro...
Mas a musica fazia também parte da sua vida, tocando ocasionalmente nas chamadas juke-joints. O passo crucial, na passagem do amadorismo para uma carreira profissional, veio em 1941, quando Alan Lomax, da Biblioteca do Congresso Americano, foi ao Mississippi para tentar gravar os trabalhos de Robert Johnson. Lomax chegou atrasado... Johnson havia morrido três anos antes. Para não perder a viagem, perguntou nas redondezas quem mais poderia estar interessado em gravar, e Elmore James recomendou Muddy Waters. Apesar das gravações não terem intuitos comerciais, Muddy ficou de tal modo impressionado pelo seu som a sair de um altifalante que imediatamente decidiu seguir uma carreira profissional.
A sua carreira atingiria o topo em Chicago, na editora Chess, de Willie Dixon. Podemos vê-lo aqui com James Cotton (na harmónica), em Got My Mojo Working.
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25 Abril 2008
Born under a bad sign
Há 85 anos, nasceu Albert King. Um dos três "reis" dos blues (mais B.B e Freddie, sem qualquer relação familiar). Aqui está ele com "Lucy", a sua famosa Gibson Flying V.
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20 Abril 2008
Worried life blues
Depois do impressionante resultado do Sporting em Leiria esta noite, nada mais apropriado que este Worried life blues, o clássico de Maceo Merriweather, numa versão de Robben Ford.
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16 Abril 2008
Ortografias
O acordo ortográfico é mesmo essencial para a sobrevivência da língua portuguesa. A história está pejada de exemplos de línguas que morreram por não se adaptarem aos tempos modernos, por não se tornarem homogéneas e consistentes. Neste contexto, deixo aqui um breve exemplo de uma língua sem nenhuma importância e cujo declínio foi causado pela dificuldade de partilhar textos editados nos dois lados do oceano.
Versão do Velho Continente: Johnny’s favourite friday night programme is to go to a movie theatre. He usually goes to the local shopping centre, just up the road, at Marlborough. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pyjamas, there is nothing like the full colour and close dialogue experience of the silver screen.
Johnny is a little barmy about movies. At least that’s what his mum says. He’s memorised lines from all genres of movies from the mediaeval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the ageing jewellery-clad femme fatale. As a fan of aviation, his speciality, he also delights in movies that show the skilful art of manoeuvring aeroplanes.
The theatre up at Marlborough, however, is a bit draughty, due to the aluminium ceiling. But the show is worth ploughing through. In it’s defence, it should be said that being about 300 metres away from his front door, it could hardly better fulfil the role, in Johnny’s judgement.
Versão do Novo Mundo: Johnny’s favorite friday night program is to go to a movie theater. He usually goes to the local shopping center, just up the road, at Marlboro. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pajamas, there is nothing like the full color and close dialog experience of the silver screen.
Johnny is a little balmy about movies. At least that’s what his mom says. He’s memorized lines from all genres of movies from the medieval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the aging jewelry-clad femme fatale. As a fan of aviation, his specialty, he also delights in movies that show the skillful art of maneuvering airplanes.
The theater up at Marlboro, however, is a bit drafty, due to aluminum ceiling. But the show is worth plowing thru. In it’s defense, it should be said that being about 300 meters away from his front door, it could hardly better fullfil the role, in Johnny’s judgment.
Etiquetas: humor, oportunismo, self-delusion, tretas
12 Abril 2008
You ain't nothin' but a Hound Dog Taylor
Se fosse vivo, Hound Dog Taylor faria hoje 93 anos. Fica aqui um video deste bluesman do Mississippi, onde aparece o também lendário Little Walter. A Hound Dog Taylor deve-se o facto de ter sido a inspiração para Bruce Iglauer lançar a Alligator Records, sem a qual os blues não teriam visto tantos novos talentos alcançar o sucesso e tantos velhos talentos ressurgirem das cinzas.
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10 Abril 2008
Liberdade sem dicotomias III
O Ricardo Alves queixou-se de eu não ter lhe respondido sobre o que é a “liberdade económica”. Devo confessar que pensei que era uma pergunta retórica. Quando ele perguntou se tal coisa seria «A “liberdade” de não pagar impostos? A “liberdade” de pagar salários baixos? A “liberdade” de despedir mais facilmente?» pensei que era uma forma, apesar de equivocada, de fazer uma argumentação reductio ad absurdum. Parece que não, pelo que vou de seguida responder. Folgo, pelo menos, que a alegada contradição no meu argumento original já está esclarecida.
É difícil separar o conceito de liberdade económica do conceito genérico de liberdade. Na verdade, os pressupostos que servem de base à liberdade económica são eles próprios elementos essenciais da liberdade como um todo. Estes são: (i) o domínio da lei (rule of law), incluindo a igualdade de todos perante a lei, a sujeição do estado à lei e a previsibilidade da mesma; (ii) o respeito pelo direito de cada indivíduo à propriedade e integridade da sua pessoa, incluindo o produto do seu trabalho, a capacidade de acumular riqueza criada sob a forma de propriedade e de fazer uso desta em transmissão livre e voluntária; e (iii) o direito à interacção livre e voluntária entre indivíduos, incluindo o direito destes a estabelecer as regras (contratos) que regerão essa interacção, e que terão protecção da lei (ou de outros mecanismos de arbitragem voluntariamente aceites).
Existem alguns corolários destes princípios no âmbito económico, daí falar-se em liberdade económica. A liberdade de iniciativa (p.ex. criar uma empresa) ou a liberdade de escolha de profissão (ao contrário de outros tempos em que determinados indivíduos estavam barrados por nascimento a aceder a certas actividades).
Quando o Ricardo Alves pergunta pela liberdade de “pagar salários baixos” ou de “despedir mais facilmente”, está a assumir que a relação é coerciva. À liberdade de um empregador de não contratar determinado indivíduo por este pretender um salário demasiado alto, corresponde a liberdade deste último não aceitar um salário demasiado baixo. A transacção é voluntária. Quando existir interferência na liberdade das partes acordarem um preço, o mais provável é que se deixe de fazer a transacção. Igual lógica se aplica ao despedimento. As condições de terminar um contrato devem estar previstas no mesmo e ser livremente aceites pelas partes. Quanto maior a interferência, menos provável a transacção.
Já a questão de pagamento de impostos é de natureza diferente. É evidente que o estado necessita de financiamento. Se impostos sobre o rendimento e consumo são a forma mais eficiente de o fazer é algo que foge ao âmbito da definição de “liberdade económica”. O problema está na altura em que esses impostos se tornam opressivos (a própria origem do termo “imposto” diz muito). Isto é, quando violam o domínio da lei, o direito de propriedade ou o direito de interagir de forma livre e voluntária.
Etiquetas: democracia, liberalismo
09 Abril 2008
O Catolicismo e o Liberalismo
A pergunta do André Abrantes Amaral e a dúvida do Carlos Abreu Amorim têm a resposta dentro da própria definição dos termos usados. Na verdade, e apesar de não partilhar o entusiasmo algo selectivo do Pedro Arroja com o catolicismo, é impossível negar que a história e desenvolvimento filosófico do liberalismo estão inexoravelmente ligadas com o catolicismo. Dito isto, é também inegável que a maior parte dos católicos está longe de ser liberal.
Desde o conceito da alma individual e do livre arbítrio, da função de contra-poder da igreja durante a idade média, da Magna Carta, que teve no Arcebisco de Cantuária Stephen Langton um dos seus principais redactores, à reabilitação do pensamento aristotélico por S. Tomás de Aquino, até aos escolásticos de Salamanca, no liberalismo abundam influências católicas.
A secularização do debate filosófico é que tem afastado os católicos da corrente liberal na sua história. Num ambiente culturalmente colectivista, não surpreende que muitos católicos absorvam muitas das ideias dominantes. Quando o Pedro Arroja acusa Ayn Rand de ser predominantemente anti-católica (onde, a propósito de colectivismo, vai aplicando sempre as suas generalizações sobre judeus), esquece de referir o porquê das opiniões de Rand face ao catolicismo, nomeadamente a sua crítica à encíclica Populorum Progressio de Paulo VI, um documento próximo do socialismo ou, no mínimo, equivocado quanto ao capitalismo e à realidade.
Etiquetas: gaitadas, individualismo, liberalismo, teses adolescentes
08 Abril 2008
Hating the good for being good
No Sábado passado fizeram cem anos sobre o nascimento de Herbert von Karajan, o maestro austríaco. O Público fez um artigo especial sobre o tema e convidou duas pessoas para dar a sua opinião sobre Karajan. Uma positiva e outra negativa. A negativa, de Pedro Boléo, é um destilar de veneno contra o homem, com as sempre obrigatórias referências à ligação de Karajan ao partido nazi, como se tal tivesse algo a ver com o seu mérito artístico. Vários dos meus artistas favoritos são ou eram de esquerda; isso não muda a minha opinião sobre o seu trabalho. Karajan era vaidoso. Provavelmente díficil, se não impossível, no trato. Egocêntrico. Tudo aquilo que uma cultura colectivista detesta.
A positiva, de Nuno Vieira de Almeida, é premonitória:
«(...) infelizmente nós por cá, liderados por opinion makers que não têm a menor autoridade para falarem, temos algum prazer em denegri-lo por uma série de razões extra musicais.»
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02 Abril 2008
Bonnie and slide
Não há voz como a de John Lee Hooker. Em 1989, já com 72 anos de idade, lançou The Healer, com o qual ganhou um Grammy. Entre os colaboradores no album estavam Robert Cray, Charlie Musselwhite, George "B-b-b-bad" Thorogood e Carlos Santana. Nele constava ainda este I'm in the mood, onde participa Bonnie Raitt.
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30 Março 2008
O Humanitário com a Guilhotina
(adaptado e traduzido a partir do original de Isabel Paterson, incluido no seu livro The God of The Machine, editado em 1943)
A maior parte do mal no mundo é feito por boas pessoas, e sem ser por acidente, lapso ou omissão. É o resultado das suas acções deliberadas, persistentes ao longo do tempo, e por si vistas como motivadas por altos ideais e objectivos virtuosos. Isto é demonstravelmente verdadeiro; e nem podia ser de outra forma. A percentagem de pessoas realmente malignas, violentas ou depravadas tem de ser pequena, pois nenhuma espécie sobreviveria se os seus membros habitual e conscientemente se ferissem uns aos outros, por sistema. A destruição é tão fácil que mesmo uma minoria persistente mal-intencionada poderia exterminar em pouco tempo a maioria inocente de pessoas tendencialmente boas. Homicídio, roubo, pilhagem e destruição são facilmente cometíveis por todos os indivíduos em qualquer altura. Se assumirmos que estes são inibidos apenas por medo ou pela força, que temerão eles, ou quem usaria de força contra eles se todos os indivíduos tivessem as mesmas inclinações? Se calculássemos todo o mal cometido por criminosos deliberados, o número de homicídios, a extensão de estragos e perdas, este seria certamente negligenciável comparado com a totalidade de morte e devastação causada a seres humanos pela sua própria espécie. Por conseguinte, é óbvio que em periodos quando milhões são exterminados, a tortura é praticada, a fome forçada, a opressão tornada política, como presentemente em grande parte do mundo, e como ocorreu frequentemente no passado, tal só é possível com a vontade de muito boa gente, mesmo com a sua acção directa, no que consideram objectivos virtuosos. Quando não são os executantes imediatos, dão publicamente a sua aprovação, elaborando justificações ou então escondendo factos com silêncio, e desencorajando a discussão.
(...)
Como foi que a filosofia humanitária da Europa do século XVIII abriu as portas ao Reino do Terror? Não foi por mero acaso; foi antes a consequência lógica da premissa original, do objectivo e meios propostos. O objectivo era o de promover o bem dos outros enquanto a primeira justificação da existência; os meios, os poderes do colectivo; e a premissa, a de que o "bem" é colectivo.
O fundo da questão é ético, filosófico e religioso, abarcando a relação do homem com o universo, da sua faculdade criativa com o seu Criador. O erro fatal ocorre na incapacidade de reconhecer a norma da vida humana. Claramente, há uma grande quantidade de dor e angústia que ocorrem na existência. A pobreza, a doença e acidentes vários são possibilidades que podem ser reduzidas a um mínimo, mas que não podem ser totalmente eliminadas do caminho que a humanidade deve percorrer. Mas estas não são condições desejáveis, para ser alcançadas ou perpetuadas. Com naturalidade, as crianças têm pais, enquanto a maior parte dos adultos gozam de uma saúde razoável a maior parte da vida e desenvolvem actividades úteis que lhes permite subsistir. Essa é a norma e a ordem natural. Os males são marginais. Podem ser aliviados com recurso ao excesso marginal de produção; caso contrário nada se poderia fazer. Assim, não se pode assumir que o produtor existe apenas em função do não-produtor, o saudável em função do doente, o capaz em função do incapaz; nem qualquer pessoa em função de outra. (O processo lógico, se assumirmos que qualquer pessoa existe apenas em função de outra, foi implementado em sociedades semi-bárbaras, quando a viúva ou seguidores de um homem morto eram enterrados vivos na sua sepultura.)
As grandes religiões, que são também grandes sistemas intelectuais, sempre reconheceram as condições da ordem natural. Elas urgem a caridade e a benevolência como obrigações morais, a ser alcançadas por via do superavit do produtor. Isto é, tornam-nas secundárias relativamente à produção, pela inultrapassável razão que sem produção não haveria nada para dar. Consequentemente, elas prescrevem regras severas, a ser assumidas apenas voluntariamente, para aqueles que desejarem devotar totalmente as suas vidas à caridade, a partir de contribuições. Esta é sempre considerada um vocação especial, pois nunca poderia ser a forma de vida comum. Como o beneficente tem de obter os fundos ou bens, que distribui, através do produtor, ele não tem autoridade para mandar; ele tem de pedir. Quando ele subtrai a sua própria subsistência a partir destes donativos, ele apenas pode retirar o mínimo essencial. Como prova da sua vocação, ele tem até de prescindir da felicidade da vida familiar, como forma de receber a benção formal. Nunca pode obter o seu conforto a partir da miséria alheia.
(...)
Se o objectivo principal do filântropo, a sua razão de existir, é ajudar os outros, o seu bem supremo requer que esses outros estejam em estado de necessidade. A sua felicidade é a outra face da moeda da miséria alheia. Se ele deseja ajudar a "humanidade", então toda a humanidade tem de passar necessidade. O humanitário pretende ser o agente principal nas vidas dos outros. Ele não pode admitir nem o divino nem a ordem natural, pela qual os homens têm o poder de se ajudar a si mesmos. O humanitário substitui-se a Deus.
Mas dois factos inconvenientes o confrontam; primeiro, os capazes não precisam da sua ajuda; e segundo, a maior parte das pessoas, se não forem pervertidas, decididamente não deseja ser "ajudada" pelo humanitário. Quando se diz que toda a gente devia viver em função dos outros, qual é o rumo de acção específico que deve ser seguido? Deve cada pessoa fazer exactamente o que qualquer outra quiser, sem limites ou reservas? E somente o que os outros querem que faça? O que acontece se pessoas diferentes fizerem exigências contraditórias? O esquema é impraticável. Possivelmente o que se pretende é que uma pessoa faça apenas o que é "bom" para os outros. Mas saberão esses outros o que é bom para eles? Não, a mesma dificuldade elimina esta hipótese. Deverá então A fazer o que lhe parece bom para B, e B o que lhe parece bom para A? Ou deverá A aceitar apenas o que lhe parece bom para B, e vice-versa? Tal seria absurdo. Claro que o que o humanitário na verdade propõe é que seja feito o que ele pensa ser melhor para todos. É nesta altura que o humanitário monta a sua guilhotina.
Que tipo de mundo vê o humanitário como aquele que lhe permite o máximo alcance de acção? Só pode ser um mundo de sopas-de-pobres e hospitais, no qual ninguém retenha o poder natural de um ser humano de ajudar-se a si mesmo ou de resistir que ajam sobre ele contra a sua vontade. E este é o mundo criado pelo humanitário quando consegue levar a sua vontade avante. Quando um humanitário deseja que cada pessoa tenha um litro de leite, é evidente que não é ele que tem o leite, nem é capaz de o produzir. Caso contrário, porque haveria ele de simplesmente "desejar"? Mais, mesmo que ele possuísse leite em quantidade suficiente para dar um litro a cada pessoa, desde que os seus supostos beneficiados tivessem a possibilidade de produzir leite para si próprios, eles diriam "não, obrigado". Assim sendo, como criará o humanitário a situação em que ele terá todo o leite e todos os outros carecerão dele?
Só há uma forma. Através do uso do poder político na sua máxima extensão. Por isso, o humanitário sente-se mais gratificado ao encontrar ou visitar um país onde todos vivem limitados por racionamento. Onde a subsistência é distribuída aos poucos, o seu desiderato é alcançado: carência generalizada e um poder superior para "aliviá-la". O humanitário na teoria é o terrorista em acção.
(...)
O filântropo, o político e o parasita estão inevitavelmente aliados, porque têm os mesmos motivos, procuram os mesmos fins; existir para, e através de, outros. As pessoas boas não podem ser exoneradas do facto de os apoiarem. Nem podemos acreditar que as pessoas boas estão totalmente alheadas das consequências. Mas quando estas pessoas boas sabem, e seguramente o sabem, que três milhões de pessoas (na menor das estimativas) morreram de fome em um ano, como consequência dos métodos que aprovam, porque continuam a fraternizar com os assassinos e a apoiar as suas acções? Porque lhes disseram que a morte de três milhões poderá, no fim, beneficiar um número maior. Este argumento aplica-se igualmente bem ao canibalismo.
Etiquetas: individualismo, liberalismo, ética

