Crónica do Migas
Beneath this mask there is more than flesh. Beneath this mask there is an idea, Mr. Creedy, and ideas are bulletproof.

16 dezembro 2009

 

Para que serve a imprensa?


Quando um jornal publica um editorial em que assume que a investigação de factos é secundária perante a força dos números de quem defende uma determinada teoria, isto é jornalismo ou propaganda? Quando um jornalista deixa que a sua opinião pessoal influencie a sua abertura a investigar factos surgidos publicamente, ignorando-os, está a fazer o seu trabalho ou a disseminar propaganda? Quando um jornal dissemina acriticamente a refutação de factos por terceiros, sem analisar os factos em si, está a veicular informação ou a escondê-la?

A crise da imprensa é conhecida. O declínio provavelmente inevitável. Sem boas práticas de jornalismo, o epílogo limitar-se-á a chegar mais depressa.

Algumas notas:

O editorial do i refere [negritos meus]: «[O climategate levou] este batalhão de cientistas a declarar “a maior confiança nas provas de aquecimento global”, a lembrar que o fenómeno se deve “às actividades humanas” e a pedir medidas urgentes na Dinamarca

Na verdade, como se pode ver na “declaração”, não existe qualquer menção à Cimeira de Copenhaga, ou à Dinamarca. A “declaração” limita-se a ser uma profissão de fé nas conclusões dos relatórios do IPCC.

Refere ainda: «O efeito de estufa resulta da emissão de dióxido de carbono, mas é curioso verificar como tanta gente responsável ainda duvida desta evidência científica ou da própria existência do efeito de estufa.»

Não é esta a questão. Este argumento falaccioso tenta reduzir ao ridículo a posição céptica. O que está em causa é a magnitude do fenómeno, especialmente face a outros fenómenos não-antropogénicos, e a alegada urgência de agir.

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15 setembro 2009

 

Junk science II


No DN:
«Em 2040, o mosquito da malária será uma visita habitual em muitas partes da Europa e dos Estados Unidos (EUA). Tudo por causa do aquecimento global. Mas esta não é a única doença que vai beneficiar com as alterações climáticas: a dengue, a desinteria e a cólera também vão ameaçar mais pessoas, alerta a cientistas norte-americana Rita Colwell, do Centro de Biotecnologia Marinha da Universidade de Maryland, nos EUA.»
Até meados do século XX existiu malária por todo o sul da Europa e por todo o território dos EUA. Na Europa, a erradicação deu-se por volta dos anos 30. Nos EUA, no início da década de 50. Não foram "alterações climáticas" que causaram esta alteração. Foram melhorias no saneamento, acções para limitar a propagação de mosquitos, secagem de pântanos e o uso de pesticidas como o DDT. Alguém acha mesmo que uma potencial subida de temperatura média em 1 grau centígrado até 2040 (worst case scenario, de acordo com os modelos SRES A2) irá reverter um século de melhoria de condições higiénicas na Europa?

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11 setembro 2009

 

Junk science


No DD:
«Uma nova pesquisa mostra que os homens que têm os dedos anelares mais longos têm maior propensão para conduzir demasiado depressa ou para estacionar ilegalmente.

(...)

O mais recente estudo elaborado nesta matéria, que envolveu 77 homens condutores com uma média de idade de 38 anos, foi realizado na Alemanha, por investigadores da Universidade de Mainz.

Cada voluntário passou por um processo de digitalização da mão esquerda, no sentido de medir o comprimento dos dedos anelar e indicador. Depois, foram inquiridos acerca de todas as contra-ordenações que cometeram na estrada, nos últimos cinco anos.

Pouco mais de um terço dos voluntários registaram pontos de penalidade nas suas licenças de condução (entre um a 20), por contra-ordenações relacionadas com desde o excesso de velocidade a conduzir sob o efeito do álcool.

Segundo as conclusões divulgadas, os homens que tinham o dedo anelar mais longo tinham maior propensão para cometer contra-ordenações.»

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22 junho 2009

 

Comentarismo de ponta


No Jornal de Negócios, referem-se os comentários de Roubini sobre as bolsas:
«As afirmações feitas hoje por Roubini, em especial no que diz respeito aos mercados accionistas, de par com o anúncio de piores previsões para a economia global por parte do Banco Mundial, estão a penalizar as bolsas na Europa e nos EUA.»
Espectacular análise de causa e efeito. Eu bem tentei na Reuters e em outras agências, mas só o brilhante analista do diário português conseguiu inferir esta relação...

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02 abril 2009

 

Grandes Exemplos de Lógica


Cândida Almeida diz que não existiram pressões porque os procuradores estão habituados. Pinto Monteiro diz que não existiram pressões, mas "menciona" que vai averiguar "violações da deontologia".

(via JN)

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01 abril 2009

 

Isso já a minha avó dizia quando eu era pequeno


Empresa espanhola lança chocolate que inibe apetite

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23 março 2009

 

Desculpas o caraças...


O título d'A Bola hoje é «Árbitro Pede Desculpas, Sporting Não Aceita». Curiosa definição de "desculpas". O próprio jornal o que descreve é «Apesar de o árbitro do Sporting-Benfica ter assumido o erro na marcação da grande penalidade, como pediu Soares Franco, o Sporting não ficou satisfeito com as explicações

Esta mania é muito portuguesa. Um tipo "assume" que fez asneira (ou pior) e fica tudo bem. Mas assumir não é de todo o mesmo que pedir desculpas. Aquilo que ouvi na televisão, e que o DN refere aqui, foi Lucílio Baptista afirmar «que não há necessidade de pedir desculpa aos "leões", preferindo "assumir o erro, ainda por cima com influência no resultado, perante os adeptos"».

Desculpas pediu o Pedro Silva. O brasileiro está a aprender os hábitos portugueses rapidamente. Por cá quem pede desculpas é quem foi roubado.

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Gamar? Palmar? Sacar? Redistribuir?


«Pais António, o árbitro assistente que confirmou a Lucílio Baptista que Pedro Silva tinha mesmo cometido grande penalidade, durante o polémico Sporting-Benfica da final da Taça da Liga, abordou esta manhã o caso aos microfones Rádio Renascença. Para o juiz, se o lance tivesse lugar hoje, voltaria a decidir da mesma forma.

(...)

"São coisas que acontecem. Não estamos lá para roubar. Não é a palavra mais correcta."»

(link)

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13 fevereiro 2009

 

Métodos Socráticos


Mais depressa se apanha alguém com uma insuficiência epistemológica do que um portador de deficiência num dos membros inferiores.

Segundo o Jornal de Negócios, o primeiro-ministro terá citado «um estudo, segundo o qual os 10% que declaram maiores rendimentos em Portugal deduzem, em média, 300 euros, em despesas de Saúde, ao passo que os de rendimentos médio apenas “abatem” 80 euros. Em seu entender, esta situação “não é justa” e deve ser corrigida.»

Interrogo-me como quererá o primeiro-ministro “corrigir” a situação. O montante deduzido é proporcional aos gastos com saúde efectuados pelo contribuinte. Os contribuintes que deduzem menos também gastam menos. Vão ao Serviço Nacional de Saúde. Que é pago com os impostos dos primeiros, que dada a progressividade dos escalões, até pagam disproporcionalmente por serviços que não usam ou usam menos (daí deduzirem mais no IRS). Este é o resultado directo do sistema fiscal que temos, que é progressivo e redistributivo. Uma “correcção” aqui significa uma de duas coisas: Ou os contribuintes de escalões inferiores passam a gastar mais em saúde, fora do SNS (algo contraditório com o propósito do dito sistema), ou então os contribuintes dos escalões superiores passam a deduzir menos (o que se traduz simplesmente num aumento de impostos).

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21 janeiro 2009

 

Análise de grande nível


Em artigo de opinião no sítio da SIC, Luis Costa Ribas afirma que o presidente cessante dos EUA, George W. Bush, foi o "pior de sempre", avançando depois com uma (tentativa de) fundamentação. Não é que eu seja um admirador de GWB (de todo, como já tive oportunidade de escrever, há cerca de um ano, aqui e aqui), mas a argumentação de Costa Ribas é de uma pobreza embaraçosa.

Em todo o artigo, há uma queixa crítica objectiva: A questão da invasão do Iraque. E mesmo aqui, o argumento é acessório e toldado pelo óbvio dislike pessoal de Costa Ribas por GWB. Ora, embirrações todos podem ter; não servem muito é para constituir "análise política".

As gaffes, personalidade e religiosidade de uma pessoa não são bases para julgá-la politicamente. Especialmente para julgar o seu mandato presidencial como "o pior de sempre". (Uma questão não menos importante é a verdade histórica: Houve presidentes americanos que eram autênticos gangsters.)

Há muitas críticas que podem ser feitas a GWB que justificam que seja acusado de ter sido um péssimo presidente que cometeu muitos erros, alguns muito graves. Costa Ribas não refere nem uma. Isto só mostra que a lição não foi aprendida. Para muitos "analistas políticos", existe alguma dificuldade em perceber o que é política.

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19 agosto 2008

 

Indicadores de sucesso


A gritante prova da falácia usada por João Marcelino (aqui identificada) é que apesar dos meios disponibilizados pelo estado português para a preparação e participação olímpica, especialmente face ao passado, tivemos todos de testemunhar o episódio do "de manhã só estou bem na caminha", o episódio do "não sou muito dada a este tipo de competições" e o episódio do "agora vou de férias ...
não vou aos 5000 metros, as africanas são fortes; não vale a pena lutar contra elas"
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E no fim disto, ainda vem o secretário de estado dizer que "os atletas são melhores a fazer desporto que a prestar declarações". Manifestamente, não são grande coisa em nenhuma das duas.

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01 maio 2008

 

A verdadeira escassez


Dizia Voltaire que o senso comum não é assim tão comum. E, de facto, perante o que se tem dito sobre os preços dos bens alimentares, em especial o arroz, podemos concluir que a escassez de senso comum é algumas ordens de grandeza superior à escassez dos primeiros. Segundo o Jornal de Negócios, Zean Zeigler, que além de ter nome de guitarrista de rock psicadélico tem o sugestivo título de «relator da ONU para o Direito à Alimentação», terá afirmado que o biocombustíveis são «um crime contra grande parte da humanidade». Apesar de não achar que os biocombustíveis sejam grande ideia (mais ou menos no patamar do Microsoft Bob e do Fiat Multipla), creio que existem vários equívocos na ideia de que os aumentos de preços dos bens alimentares são causados pela produção de biocombustíveis.

Em primeiro lugar, à parte de algumas experiências com palha de arroz e outra biomassa resultante da sua produção, este alimento não é usado em biocombustíveis. Além disso, nem sequer se pode dizer que as commodities usadas em biocombustíveis (essencialmente milho e cana de açucar, a que se juntam em menor volume a soja, o côco e o girassól) tenham no arroz um substituto. Em segundo lugar, a subida do preço do arroz foi repentina, ao ponto de os preços não se terem repercutido ainda no produtor. O arroz transaccionado e cujo preço mais que duplicou encontra-se no circuito de distribuição internacional (entre o produtor e os grossistas nacionais). Isto sugere que o problema não se deve nem à produção (os níveis são idênticos aos do ano passado) nem ao consumo. Tudo indica que houve um súbito fluxo de dólares para este mercado como refúgio da desvalorização desta moeda. Quem tinha dúvidas de para onde iria o dinheiro barato injectado pela Federal Reserve tem aqui uma potencial resposta.

Mas mais extraordinário ainda é a multiplicidade de intervenções políticas neste mercado. Desde o nanny state japonês que tem desencorajado a produção de arroz com o objectivo de mudar os hábitos alimentares no país até ao rigoroso oposto em países como a China, onde o governo subsidia o arroz para encorajar a sua produção e consumo. Também brilhante é a intervenção dos governos da Índia, Vietname e Cambodja, que confrontados com uma subida do preço do arroz resolveram restringir a oferta; uma receita económica digna de um qualquer aluno da Faculdade “Chapeleiro Louco” de Economia da Universidade do País das Maravilhas, onde tudo funciona ao contrário.

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16 abril 2008

 

Ortografias


O acordo ortográfico é mesmo essencial para a sobrevivência da língua portuguesa. A história está pejada de exemplos de línguas que morreram por não se adaptarem aos tempos modernos, por não se tornarem homogéneas e consistentes. Neste contexto, deixo aqui um breve exemplo de uma língua sem nenhuma importância e cujo declínio foi causado pela dificuldade de partilhar textos editados nos dois lados do oceano.

Versão do Velho Continente: Johnny’s favourite friday night programme is to go to a movie theatre. He usually goes to the local shopping centre, just up the road, at Marlborough. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pyjamas, there is nothing like the full colour and close dialogue experience of the silver screen.

Johnny is a little barmy about movies. At least that’s what his mum says. He’s memorised lines from all genres of movies from the mediaeval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the ageing jewellery-clad femme fatale. As a fan of aviation, his speciality, he also delights in movies that show the skilful art of manoeuvring aeroplanes.

The theatre up at Marlborough, however, is a bit draughty, due to the aluminium ceiling. But the show is worth ploughing through. In it’s defence, it should be said that being about 300 metres away from his front door, it could hardly better fulfil the role, in Johnny’s judgement.

Versão do Novo Mundo: Johnny’s favorite friday night program is to go to a movie theater. He usually goes to the local shopping center, just up the road, at Marlboro. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pajamas, there is nothing like the full color and close dialog experience of the silver screen.

Johnny is a little balmy about movies. At least that’s what his mom says. He’s memorized lines from all genres of movies from the medieval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the aging jewelry-clad femme fatale. As a fan of aviation, his specialty, he also delights in movies that show the skillful art of maneuvering airplanes.

The theater up at Marlboro, however, is a bit drafty, due to aluminum ceiling. But the show is worth plowing thru. In it’s defense, it should be said that being about 300 meters away from his front door, it could hardly better fullfil the role, in Johnny’s judgment.

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25 março 2008

 

Operação Páscoa


Consta que este ano houve «Mais mortos do que em 2007» durante o período da Páscoa. Na estrada, isto é. O facto de ser mais um (sete versus seis) não devia dar direito ao uso do plural, mas enfim. Ainda assim o meu título favorito é o da TVI, que diz que «Operação Páscoa provoca 5 mortos e 11 feridos». Malandros da GNR, a provocar acidentes. O curioso de todo este espalhafato é outro, com bastante mais significado estatístico, pois a «BT levantou mais de 3.500 contra-ordenações»:
«A Brigada de Trânsito (BT) da Guarda Nacional Republicana (GNR) levantou 3.537 autos de contra-ordenação durante os quatro dias da Operação Páscoa, na maioria por excesso de velocidade e condução sob o efeito de álcool. (...) foram detectados 184 condutores sob o efeito de álcool, (...) ainda 149 processos de contra-ordenação por falta de uso do cinto de segurança, principalmente nos assentos traseiros, (...) várias outras infracções como o uso de telemóvel, a circulação na faixa central em auto-estrada e falta de seguro das viaturas.» - Diário Digital

Este enfoque tão grande na morte na estrada, com a respectiva acção "repressiva" e "punitiva", especialmente sobre os automóveis, ignora aspectos importantes; nomeadamente o facto de quase metade dos mortos em acidentes de viação em Portugal serem peões e condutores de veículos de duas rodas. Só nesta Operação Páscoa, de acordo com o artigo do Diário Digital, quatro dos sete mortos ocorreram em colisões de automóveis e bicicletas. Mas aparentemente o que interessa é andar atrás de quem circula na faixa do meio na auto-estrada, ainda por cima com passageiros traseiros sem cinto de segurança.

Na vizinha Espanha, morreram 63 pessoas durante a Semana Santa. E o impressionante não é este número elevado, mas antes o facto de representar uma queda de 40% face a 2007. Pela primeira vez o número foi inferior a 100. É preciso ter em atenção que as 63 vítimas mortais ocorreram num período de dez dias, comparando com as sete vítimas portuguesas em quatro dias. Para o período exactamente igual, quinta-feira a domingo, morreram nas estradas espanholas 34 pessoas. Tendo em conta a dimensão da população e parque automóvel, apesar das amostras serem demasiado pequenas para tirar conclusões, isto parece confirmar que a sinistralidade rodoviária portuguesa já não é muito diferente de outros países europeus semelhantes. Uma análise mais detalhada pode ser vista aqui.

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25 janeiro 2008

 

A Bushologia


(também postado n'O Insurgente)

Uma pitada de desconfiança relativa aos Estados Unidos, enquanto símbolo do capitalismo, e uma dose q.b. de raiva a George W. Bush são os ingredientes certos para criar um prisma esquerdista através do qual se pode observar a América. De forma enviezada, claro. Julgar os Estados Unidos, em especial esta administração, torna-se assim uma ciência especial, com a sua própria base axiomática e epistemológica solidamente assente em coisa nenhuma e outras tretas. Uma “Bushologia”.

Não quer isto dizer que a administração Bush foi boa, ou sequer passável. Não foi. Foi uma bosta. Mas este meu juízo não se prende com o tipo de questões habitualmente apresentadas pelos bushólogos. Prende-se com o facto de que George Bush falhou redondamente nos três pontos principais em que fundamentou as suas campanhas em 2000 e/ou 2004:
Pelo contrário, Bush acabou por protagonizar um dos maiores crescimentos do estado federal desde Roosevelt. Rivaliza com Kennedy e Johnson; e acaba por ser imbatível se limitarmos a análise apenas a presidentes republicanos. Isso seria suficiente para considerá-lo péssimo. Mas on top, o senhor ainda consegue gastar perto de um trilião de dólares anuais armado em polícia do mundo.

Mas para os bushólogos isso não interessa. O que interessa é aplicar o tal prisma que vê tudo em função de vagas intenções e da glorificação do “estado infalível”, por um lado, e que só vê na América um suposto combate entre usurários especuladores e pobres desprovidos de cuidados de saúde, por outro. Os factos não interessam para nada. Bush aumentou brutalmente os gastos em educação, saúde e serviços sociais. Eu critico-o por isso, mas os bushólogos criticam-no por supostamente não o fazer. Neste post no Kontratempos, Tiago Barbosa Ribeiro não percebe como se pode pensar em reduzir o estado federal. Sai-se com o velho lugar-comum dos milhões de americanos que “não têm qualquer cobertura de saúde”. Sobre isso já escrevi aqui. Mas vai mais longe e dá o exemplo de um veto de Bush em que supostamente ele “recusou um programa que alargaria os cuidados médicos a crianças pobres”. O problema aqui é que o programa não era destinado aos pobres, constituindo antes uma expansão de cobertura a uma parte significativa das crianças na classe média. E é fácil ver isto. Na notícia linkada, lê-se que o alvo seriam crianças “carentes”, mas que não tinham acesso ao programa Medicaid. Como este programa cobre cerca de 14% da população e o limiar de pobreza está estimado em cerca de 12% da mesma, é fácil de ver que há alguma inconsistência na tese. E mesmo a pobreza nos EUA é uma assunto mal analisado: É que ao contrário da Europa, na América existe uma constante mobilidade social que faz com que as pessoas subam e desçam ocasionalmente à volta desse limiar. Na Europa a pobreza é um problema persistente, com as pessoas a dificilmente sairem dessa situação. Apesar do “estado social”.

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23 janeiro 2008

 

Statler and Waldorf II


N'O Insurgente:

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03 janeiro 2008

 

Morte na estrada


No DN de hoje, o título principal é "Cada morte na estrada custa um milhão". Se tivermos em conta que esta notícia surge logo no seguimento de uma semana em que as mortes na estrada tiveram direito a lugar especial na (demagógica) mensagem de ano novo do Presidente da República, deve vir aí nova ofensiva legislativa sobre os automobilistas. Os media são tão facilmente manipulados para se tornarem verdadeiros "idiotas úteis" do estatismo, que até assusta.
Os mortos nas estradas portuguesas, em 2007, custaram ao Estado 858 milhões de euros (um milhão de euros por vítima mortal), ou seja, 0,5% do produto interno bruto. "Cada vítima mortal em sinistralidade custa cerca de 200 mil contos em moeda antiga ao Estado, segundo os dados que Portugal comunica a Bruxelas", explicou ao DN Paulo Marques, presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).

O valor é calculado tendo em conta os valores de referência usados pelos tribunais e seguradoras na arbitragem de acidentes de viação, os quais têm em conta o investimento na formação (educação, saúde, segurança social, etc.) e os ganhos de produtividade que o Estado deixou de ter com a morte prematura de um cidadão activo. A estas contas juntam-se os custos que o Estado tem com os feridos graves, que muitas vezes não recuperam completamente das lesões sofridas nos acidentes.
Fazer estes cálculos não é, em si mesmo, um problema; apesar da confusão entre custos incorridos pelos cidadãos (ou por entidades com eles relacionadas, como seguradoras) e pelo estado, bem como da confusão entre custos com a destruição de capital (neste caso humano) e custos out-of-pocket (marginais, em cash). O problema está nas possíveis conclusões políticas que normalmente se pretendem tirar deste tipo de exercício. As pessoas não pertencem ao estado, pelo que a sua eventual falta de produção não é algo que o estado perca (no sentido de deixar de ter algo que se tinha). Quando estes argumentos são apresentados, o corolário é normalmente algo do género "temos de fazer alguma coisa, porque estes custos não são aceitáveis". E quando o estado resolve fazer alguma coisa, costuma dar asneira.

Ninguém fica contente com as mortes na estrada. Especialmente de inocentes (isto é, de pessoas que acabam por morrer vítimas de comportamentos alheios). Mas antes de embarcar na desmesurada indignação comum nesta altura do ano, que condena colectivamente todos os automobilistas, clamando por mais leis, multas e restrições, é preciso perceber qual a gravidade efectiva do problema. Todos estamos familiarizados com a reputação desastrosa dos condutores portugueses, e com as alegações de que temos as piores estatísticas. Mas será realmente assim?

A IRTAD é uma base de dados estabelecida pela OCDE para registar estatísticas relativas a acidentes rodoviários, usando uma metodologia o mais uniforme possível. O objectivo da OCDE com esta base de dados é facilitar investigação e pesquisa conducentes a melhorar a segurança nas estradas. De acordo com a IRTAD, entre 1988 e 2004 as mortes na estrada em Portugal baixaram de entre 30 a 35 (por cada 100000 habitantes) para cerca de 10. O gráfico seguinte mostra essa evolução, juntamente com a evolução em igual período da Espanha e da França.

A observação do gráfico permite de imediato verificar que até há meia dúzia de anos a sinistralidade rodoviária em Portugal era efectivamente catastrófica face aos nossos vizinhos europeus. Se observarmos o gráfico seguinte, em que se compara a evolução dos mesmos três países relativamente à sua média ponderada, podemos mesmo ver que durante a primeira metade da década de 90 a situação portuguesa até se agravou em termos relativos face a Espanha e França. Valores superiores a um estão acima dessa média, inferiores, abaixo. O ponto de viragem parece ser 1997, altura em que fui viver para Inglaterra. Se calhar a culpa era minha.

Para podermos tirar uma conclusão mais objectiva, contudo, é conveniente uniformizar esta evolução dos indicadores, fazendo 1988=100. Valores acima de 100 significam que a situação piorou face a 88, abaixo, que melhorou. Podemos assim ver que a evolução em Portugal é a mais dramática de todas. De (claramente) pior da OCDE durante duas décadas, para algures a meio da tabela (embora ainda na metade inferior); sendo que os valores absolutos em todos os países têm vindo a convergir, sinal de que a segurança tem aumentado across the board.

Este tipo de uniformização é especialmente importante porque os números apresentados por estas organizações padecem de inconsistências incompreensíveis. Acontece os valores per capita para Portugal virem calculados com base numa população de nove milhões, que salvo erro era o caso nos censos de 1991. Adicionalmente, às vezes o indicador é ajustado pelos 14% referidos na notícia do DN, outras vezes não. O próprio valor do ajuste de 14%, aplicado pela primeira vez em 1999, pode estar totalmente errado hoje em dia. Parece razoável assumir que os mesmos erros podem ser feitos nos números para os outros países.

De qualquer modo, usar apenas este indicador é só parte da "estória". Para entender a sinistralidade rodoviária em Portugal é preciso ir mais longe. No cômputo geral, é possível dizer que a situação já não é tão negra quanto a pintam, apesar de pior que a média da OCDE, comunitária, whatever. Mas se cavarmos mais fundo, encontramos nos números algumas estatísticas que surpreendem pela contra-intuição.

Em primeiro lugar, e comparando com Espanha, o nosso vizinho mais próximo, os mortos entre peões são impressionantes. 16% das mortes "na estrada" em Portugal são peões; em Espanha apenas 9%. Noutros países europeus as mortes entre peões são também mais significativas, mas tendo em conta o nível de mortes algo inferior, isso deve representar simplesmente menos acidentes entre veículos. Ainda mais chocante é o peso estatístico de mortes de condutores de motociclos e bicicletas, 28% em Portugal contra 18% em Espanha.

Em segundo lugar, também comparando com Espanha, o número de mortes dentro das cidades tem um peso desproporcionado. Cerca de 35% das mortes ocorrem em áreas urbanas (o que exclui auto-estradas, estradas nacionais e rurais). O mesmo valor para Espanha é 13%! Comparando com o apontado acima, isto significa que provavelmente as estatísticas portuguesas são piores que as médias internacionais por causa de atropelamentos e acidentes envolvendo motociclos e bicicletas, dentro das cidades. Face à aproximação dos indicadores agregados, não é irrazoável a conjectura de que ao nível de sinistralidade de estrada (propriamente dita) a situação portuguesa está pelo menos igual às médias internacionais. Também não é irrazoável concluir que as mortes anormalmente altas em áreas urbanas espalham falta de civismo, não necessariamente dos automobilistas. Mas isso já são outros quinhentos.

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04 dezembro 2007

 

Bem prega Frei Tomás...


Esta é tão boa que ainda me estou a rir [negritos meus]:
The story goes a little like this, the MPAA weasels released a toolkit for universities to ostensibly track down people the content MAFIAA might be interested in extor^h^h^h^h^hchatting with. Ironically, this toolkit is based on a lot of open source software, not the usual DRM'd proprietary monstrosities they are so fond of. Getting really ironic, they appear to have modified the files and distributed them without giving out the source or telling people how to get said source files.

The technical term for doing this to GPL'd software is copyright violation. This is because if you abide by the GPL, you have a license to the copyrighted work therein. If you do not abide by it, like the MPAA appears not to have done, then you are a copyright violator.

One of the copyright holders tried in vain to get them to listen, only getting the run around from clueless secretaries. He eventually had to, wait for the added irony, contact the MPAA's ISP to get the offending copyright violations removed. Tis to laugh.

The before and after shots show the MPAA did actually remove it, but the fact remains that as of now, they appear to have done some copyright infringement, and the source and changes are nowhere to be found. Unless they do soon, we can only assume they will be sending Matthew $738,098,331.24 per CD shipped, a fair and reasonable sum by their own standards.

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01 dezembro 2007

 

Dizer besta


O André Azevedo Alves está para a blogosfera como o Sammy Davis Jr está para o entertainment: Tem pelo menos um atributo que garante que haja sempre alguém que embirre com ele. Ser liberal, católico e frontal maximiza a probabilidade dele levar os que não concordam com ele a perder as estribeiras. Até eu, talvez por causa dos meus precoces cabelos brancos, já pude ser observado no passado erguendo o sobrolho esquerdo alguns milímetros ao ler um ou outro dos seus posts mais confrontacionais.

Nem quero pensar no que diriam os seus críticos se soubessem que, ainda por cima, ele é um reptiliano de língua bifurcada que come criancinhas, temperadas com aspartame, ao pequeno almoço, enquanto conspira com o seu dark master, o malévolo lorde da Mont Pelerin Society, para eliminar da face da galáxia os mestrandos jedis de Oxford. Para não falar no facto de ser sobrinho, pelo lado da prima da vizinha de baixo do cunhado do Donald Rumsfeld.

Bom. Manda o princípio da dupla precaução que eu aqui me proteja deixando bem claro que os parágrafos acima eram a gozar. Uma vez que o Tiago Mendes anda por aí a retirar palavras e frases do seu contexto para lançar ataques ad hominem ao Darth, quer dizer, André. É que levar estas coisas com humor e boa disposição é o melhor que se pode fazer perante a mais deprimente e patética demostração de despeito, mesquinhez e inveja que eu me lembro de ter lido na blogosfera. Perto disto, até a "extrema-esquerda trauliteira", como lhe chamaria o André, parece cordata e razoável.

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09 outubro 2007

 

Dazed and Confused


Afinal quais são as forças ocultas que manobram para dominar o mundo?
  1. A Mont Pelerin Society
  2. As Multinacionais
  3. Os Reptilianos
  4. Os Illuminati
  5. Os Judeus
  6. A Maçonaria
  7. As Petrolíferas
  8. A Direita Evangélica
  9. O Lobby Gay
  10. A Opus Dei
  11. O Complexo Militar-Industrial
  12. O Grupo Bilderberg

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