30 setembro 2009
Pensamento do dia
«Os direitos individuais não estão sujeitos ao voto público; uma maioria não tem o direito de votar para retirar os direitos de uma minoria; a função política dos direitos é precisamente proteger as minorias da opressão da maioria (e a mais pequena das minorias na Terra é o indivíduo).» - Ayn Rand
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28 setembro 2009
Pensamento do dia
«Da mais pequena necessidade à mais alta abstracção religiosa, da roda ao arranha-céus, tudo o que somos e tudo o que temos vem de um atributo do homem - o funcionamento da sua mente racional.» - Ayn Rand
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24 setembro 2009
Pensamento do dia
«Ponham a razão firmemente no seu lugar e chamem ao seu tribunal todos os factos, todas as opiniões. Questionem de forma audaz até a existência de Deus; pois, se existir, ele mais aprovará o respeito pela razão, do que o medo vendado.» - Thomas JeffersonEtiquetas: ética, objectivismo, pensamentos
23 setembro 2009
Pensamento do dia
«A civilização é o progresso em direcção a um sociedade de privacidade. Toda a existência do selvagem é pública, governada pelas leis da sua tribo. A civilização é o processo de libertação do homem relativamente aos homens.» - Ayn Rand
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18 setembro 2009
Pensamento do dia
«Estou interessada em política de modo a que um dia não tenha de estar interessada em política.» - Ayn Rand
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09 setembro 2009
Pensamento do dia
«Só existem duas formas dos homens lidarem uns com os outros: Armas ou lógica. Força ou persuasão. Aqueles que sabem que não podem vencer por meio da lógica sempre recorreram às armas.» - Ayn Rand
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04 setembro 2009
Pensamento do dia
«O dever não existe. Se sabes que algo está certo, vais querer fazê-lo. Se não o queres fazer - é porque não está certo. Se está certo e não o queres fazer - então não sabes o que é certo e não és um homem.» - Ayn Rand (em
We The Living)
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27 agosto 2009
Pensamento do dia
«Não há forma de subjugar os inocentes. O único poder de qualquer governo é o poder de submeter os criminosos. Pois quando não existem suficientes criminosos, há que fazê-los. Declaram-se tantas coisas como crime que torna-se impossível aos homens viverem sem violar a lei. Quem quer uma nação de cidadãos cumpridores da lei? O que se ganha com isso? Mas passando o tipo de leis que não podem ser nem obedecidas, nem executadas, nem interpretadas objectivamente, cria-se uma nação de incumpridores - e aí é só facturar à conta da culpa.» - Ayn Rand (frase de Floyd Ferris, personagem de
Atlas Shrugged)
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24 agosto 2009
Pensamento do dia
«A disseminação do mal é um sintoma de vácuo. Sempre que o mal vence, isto ocorre apenas por omissão: Pela falha moral daqueles que fogem ao facto de que não pode existir compromisso no que toca a princípios básicos.» - Ayn Rand
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20 agosto 2009
Pensamento do dia
«Para viver, o homem necessita de agir; para agir, ele deve fazer escolhas; para fazer escolhas, ele deve definir um código de valores; para definir um código de valores, ele deve saber o que é e onde está - isto é, deve conhecer a sua natureza (incluindo os seus meios de conhecimento) e a natureza do universo onde age - ou seja, o homem necessita de metafísica, epistemologia, ética, o que significa: Filosofia. Ele não consegue fugir a esta necessidade; a sua única alternativa é se a filosofia que o guia é escolhida pela sua mente ou ao acaso.» - Ayn Rand
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18 agosto 2009
Pensamento do dia
«A justificação moral do capitalismo não está na asserção altruista de que este representa o melhor caminho para atingir o 'bem comum.' É verdade que o capitalismo é esse caminho - se é que expressão faz algum sentido - embora tal seja meramente uma consequência secundária. A justificação moral do capitalismo está no facto deste ser o único sistema consonante com a natureza racional do homem, de proteger a sua sobrevivência enquanto homem, e de ter como seu princípio regedor a justiça.» - Ayn Rand
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28 julho 2009
Valores, objectivismo e subjectivismo
Objectivism versus "Austrian" Economics on Value, por Per-Olof Samuelsson.
«One could easily do either too much or too little of the differences between Ayn Rand’s philosophy of Objectivism and the "Austrian" school of economics. One could do too much of it by saying the "Austrians" are subjectivists, which is obviously anathema to Objectivism (and vice versa: an objective theory of value has to be anathema to the Austrians); or one could do too little of it by simply denying and/or ignoring the differences that do exist. But in fact, there is only one amendment that should be done by the "Austrians" to bridge this gulf: they should acknowledge that, while our valuation of things certainly takes place within our minds, the values that we identify as values exist "out there", in the world. This is the subject of this essay.»
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28 julho 2008
You Kant always get what you want
Como
escreveu aqui Pedro Arroja, muitos objectivistas consideram a formalização de uma teoria moral baseada no interesse próprio como a principal contribuição de Ayn Rand para a filosofia moderna. Eu não concordo, embora não pelas mesmas razões que Arroja não concorda. Era objectivo de Rand construir uma defesa moral do capitalismo, internamente coerente e sistemática. Isso pressupunha que essa defesa fosse baseada num sistema filosófico completo, incluindo bases metafísicas, epistemológicas e éticas, que não a deixassem "côxa". A ética do interesse próprio, neste contexto, surge como sendo necessária à defesa do capitalismo, sistema no qual os indivíduos interagem com base nos seus respectivos interesses próprios. Da mesma forma, para sustentação da validade desse interesse próprio, surge a base epistemológica de que ao indivíduo é possível observar e conhecer a realidade com recurso à sua faculdade racional e aos seus sentidos, podendo assim defender que esse interesse próprio tem fundamentos cognitivos e não por capricho; por sua vez, este empirismo epistemológico baseia-se nos axiomas metafísicos de que "a existência existe", que a sua natureza é objectiva ("A é A") e independente da consciência do observador.
As contribuições importantes de Rand para a filosofia moderna passam por dois aspectos diferentes. O primeiro é o todo e o segundo são algumas das partes. Em primeiro lugar, o objectivismo reveste-se de uma simplicidade que tem enorme valor explicativo, independentemente de estar potencialmente incompleto e não cobrir satisfatoriamente todas as possíveis questões filosóficas. Uma vez perguntaram a Rand se podia explicar a "sua filosofia" rapidamente
«while standing on one leg». Poucos teriam o à vontade de o fazer literalmente, levantando um pé do chão. E poucos seriam capazes de o fazer rapidamente, de forma tão estilizada. Em segundo lugar, algumas das partes são muito originais. A crítica de Kant, que
Pedro Arroja considera no seu post, é sem dúvida uma. Mas mais ainda será a rejeição da dicotomia facto-valor e de valores intrínsecos e subjectivos, que, oferecendo uma potencial solução para o problema ser/dever-ser, permite construir o argumento de que os valores são objectivos. Ou o argumento de que a fundamentação da ética advém da vida.
A crítica de Pedro Arroja de que Rand,
tal como outros, trata a vida e a sociedade como se Deus não existisse, está errada. O erro é que Rand não argumenta como os outros. Enquanto estes acabam inevitavelmente por cair na multidão como fonte da moralidade,
como o próprio Arroja aponta, Rand é a primeira a criticar a "metafísica social"; isto é, a substituição da realidade pelo consenso social na origem de factos e valores. Sendo um dos problemas que confronta os liberais como justificar os fundamentos de teorias políticas sem recurso a Deus,
como escreveu há tempos o Rui de Albuquerque, esta questão é importante. Ayn Rand sugere um potencial caminho para o problema.
O "argumento randiano" substitui
Deus como pedra basilar do seu sistema, colocando a
vida nesse papel. "Vida", aqui, não tem nenhum sentido transcendental. A base da ética objectivista assenta na observação deste valor básico comum a todos os indivíduos. Morta, uma pessoa não atribuirá valor a nada. A vida é uma condição necessária para a avaliação ética de escolhas e acções. Não é, contudo, uma condição suficiente. Uma pessoa pode subsistir ao nível mais básico, como um animal, mas só o uso activo da sua faculdade racional permite-lhe ter um entendimento de que escolhas e acções são conducentes à preservação da sua vida, no imediato e a longo prazo. No contexto de uma existência social, política, este entendimento é essencial. Temos assim que os principais contributos do cristianismo para a sociedade moderna*, o livre-arbítrio e a alma individual, permanecem válidos segundo o "argumento randiano", mesmo retirando Deus da equação. A primeira escolha que uma pessoa deve fazer é impreterivelmente a de viver. A sua sobrevivência não é automática. Acto contínuo, deve escolher e julgar as suas opções em função do impacto na sua vida. Isto é o exercício do seu livre-arbítrio. Além disso, a escolha é individual. A opção de fazer uso da faculdade racional não pode ser imposta. Uma pessoa pode, concebivelmente, escolher "não pensar", viver como um selvagem. Ou em qualquer patamar intermédio. Não existe aqui propriamente uma alma para salvar; mas há uma vontade individual de atingir, ou não, um grau de conforto consigo mesma.
* Pelo menos segundo a visão de Isabel Paterson, em The God of the Machine, que identificou três marcos fundamentais no caminho da barbárie para a sociedade moderna (leia-se democracia liberal e capitalismo): A descoberta da ciência pelos gregos, que possibilita a análise do conhecimento e, por extensão, da acção política; a descoberta do direito pelos romanos, que permite criar um sistema abstracto que pode defender o indivíduo da arbitrariedade do "poder"; e, por fim, e talvez mais significativo, a descoberta cristã da alma individual, cuja salvação depende de si própria e do seu livre-arbítrio.
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17 julho 2008
Ayn Rand e outras heresias
Caro
João,
Tens piada, pá. Gosto especialmente do straw-man de sugerires subrepticiamente que eu sou uma espécie de acrítico seguidor de Rand; um “randróide”, como dizem os mais raivosos anti-randianos; ou que tenho qualquer pretensão a ser uma autoridade na sua interpretação. Curiosamente, se repares bem, eu nem interpretei nada. Limitei-me a citar textualmente. O paralelo com o Pacheco Pereira também é engraçado, mas completamente ao lado. Mas como não estou à espera que percas o teu ocupado tempo a ler o que escrevi no passado, também não precisamos de escarafunchar este ponto. No entanto, podias ao menos ter lido o último parágrafo do meu post e seguido o link para o meu outro post sobre o altruismo. Aí já tínhamos qualquer coisa para debater, e não havia necessidade de mais um name dropping e aquele infindável copy-paste do Zizek.
Ayn Rand é alguém que claramente desperta paixões. Tem seguidores cegos, que deixando cair o contexto do que ela escreveu, quase a lêem como se fosse uma escritura religiosa; e tem detractores que perdem todo o discernimento e racionalidade ao criticarem-na. Como isto do name dropping não tem dono, aproveito o que escreveu George H. Smith:
«Accounts of Objectivism written by Rand’s admirers are frequently eulogistic and uncritical, whereas accounts written by her antagonists are often hostile and what is worse, embarrassingly inaccurate.»
A sugestão de um paralelo ou semelhança entre Rand e o fascismo é um disparate fenomenal. Ao apresentares o argumento recauchutado do Zizek, cais nesse disparate. Objectivamente, a culpa nem é tua. O erro é do Zizek; se lesses o que ela escreveu com atenção verias isso. É o risco de emitir opiniões em segunda mão.
É verdade que Rand teve na sua juventude algum deslumbramento com Nietzsche. Mas isso passou-lhe rapidamente. Por altura da publicação dos seus livros de ficção mais conhecidos já tinha desenvolvido uma visão da realidade completamente incompatível com ele. Para não dizer nada da não-ficção posterior a 1960. É possível que alguma da exaltação nietzscheana do potencial humano tenha influenciado a hero worship presente em The Fountainhead ou Atlas Shrugged. Mas daí a afirmar que Rand tem algum fascínio com a “vontade” e “poder”, ao estilo fascista - e nietzscheano - de imposição pela força aos mais fracos, vai um “salto quântico” na lógica, para não dizer atropelo.
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Compaixão e Dependência
Comentando
este post do RAF, o
João Galamba afirma às tantas (negritos meus):
«Aliás, arriscar-me-ia a dizer que o que o RAF defende, levado até às últimas consequências, é uma realidade social que tende para a desumanidade. Algo parecido com o Triunfo da Vontade, mas na sua versão liberal atomizada. A Ayn Rand adoraria. Mas para ela a compaixão e a dependência são uma espécie de doença…»
Nas caixas de comentários dos referidos posts, o RAF identifica bem o âmbito do seu texto, mostrando que as conclusões do João são algo abusivas, no sentido em que esticam ideias para além do seu âmbito. Mas não é isso que me interessa particularmente. Por “deformação intelectual” não posso deixar passar em branco a parte a negrito. O João tem muito o hábito de name dropping no que escreve: Refere este ou aquele autor, atira com uma frase estereotipada para descrever as ideias do mesmo, e já está. Neste caso concreto, ele mostra desconhecimento. Até compreensível, na medida em que é muito comum os “adversários” de Rand usarem essa caricatura. Uma leitura atenta dos seus textos, contudo, mostra o erro da “acusação”. Na entrevista que deu à Playboy, em 1964, está um exemplo que vai directamente à crítica do João:
«PLAYBOY: What is the place of compassion in your philosophical system?
RAND: I regard compassion as proper only toward those who are innocent victims, but not toward those who are morally guilty. If one feels compassion for the victims of a concentration camp, one cannot feel it for the torturers. If one does feel compassion for the torturers, it is an act of moral treason toward the victims.
PLAYBOY: Would it be against the principles of Objectivism for anyone to sacrifice himself by stepping in front of a bullet to protect another person?
RAND: No. It depends on the circumstances. I would step in the way of a bullet if it were aimed at my husband. It is not self-sacrifice to die protecting that which you value: If the value is great enough, you do not care to exist without it. This applies to any alleged sacrifice for those one loves.»
No muito vilipendiado livro The Virtue of Selfishness, cujo título causa calafrios aos “humanitários”, existem múltiplos outros exemplos da sua visão sobre a benevolência e como esta difere de altruismo. Já escrevi sobre o assunto antes, aqui.
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05 dezembro 2007
Liberalismo e Marxismo
(também postado n'O Insurgente)Recorrentemente aparece alguém algures que tenta comparar o liberalismo ao marxismo. Se no caso do marxismo já é relativamente errado encará-lo como uma corrente única, no caso do liberalismo é um tremendo equívoco, como
referiu aqui, acertadamente, o RAF. De qualquer modo, é interessante analisar as razões que levam alguns a fazer esta comparação. Deixando de lado aqueles que se limitam a aplicar a etiqueta "marxista" ao liberalismo, ou por vezes até a alvos liberais específicos, como se fosse um palavrão ou uma ofensa pré-adolescente, podemos classificar a comparação da seguinte forma:
- As acusações são normalmente de (1) determinismo económico, (2) construtivismo social e/ou (3) racionalismo utópico, características quase consensuais do marxismo
- Os alvos são tipicamente as correntes liberais mais sistemáticas intelectualmente, como o "libertarianism" americano, o objectivismo ou o liberalismo do século XX (com influência de Mises, Hayek ou Friedman, entre outros, que alguns críticos apelidam de "neoliberalismo", embora o termo esteja bastante abastardado)
A questão do
determinismo económico é interessante na medida em que há de facto um paralelismo superficial. Liberalismo e marxismo partem da observação de que a sobrevivência é a preocupação primordial de cada homem (algo óbvio, diria eu); seguidamente verificam que a acção dos indivíduos na resposta a essa preocupação é condicionada pela realidade económica. Onde diferem, e não pouco, é que o marxismo afirma que as limitações económicas levam à disseminação da ideologia que perpetua essa realidade, isto é, que os factores económicos têm primazia sobre os factores políticos. Esta afirmação tem a sua origem na perspectiva marxista de que a história faz-se de conflitos entre classes, tendo a classe dominante controlo sobre os meios económicos e, por conseguinte, o domínio sobre as restantes. O liberalismo focaliza a sua análise no indivíduo, por isso, como identificou
Lord Acton, vê o conflito antes entre liberdade individual e poder coercivo; pelo que a liberdade económica é parte indissociável dessa liberdade, contra toda a espécie de concentração de poder.
O
construtivismo social é uma acusação perfeitamente infundada. A liberdade individual defendida por todas as correntes liberais tem raízes pré-políticas. É defendida como um bem em si mesmo e não como um passo na construção de alguma sociedade ideal. Podemos, por indução, verificar que os resultados que esta liberdade traz são positivos. Mas a defesa dessa liberdade permaneceria mesmo que os não trouxesse. Já o construtivismo marxista é real. No seguimento do seu ponto de partida essencialmente determinista, como vimos acima, o marxismo defende que se deve activamente procurar uma revolução que altere as condicionantes económicas, com vista à construção da tal sociedade ideal. Neste contexto, a defesa da acção colectiva marxista depende sempre do objectivo final a construir. O fim justifica os meios.
O
racionalismo utópico é no fundo uma questão etimológica. É uma acusação feita essencialmente ao ramo objectivista. Existe um enorme mal-entendido na atribuição a Ayn Rand do adjectivo "racionalista". O objectivismo está muito mais próximo do empirismo (p.ex. John Locke) do que do racionalismo (p.ex. Descartes). A linha epistemológica do objectivismo vem na tradição aristotélica, incluindo alguns dos seus desenvolvimentos tomistas e do iluminismo. Já o marxismo vai buscar a sua reputação "racionalista" pelo carácter pretensamente científico. Esta confusão é materializada, por exemplo, na matriz de Pournelle, que coloca objectivistas e comunistas no extremo "racionalista" da matriz; embora em extremos opostos no eixo do "estatismo" (o que já em si está mal, tendo em conta que Rand era minarquista).
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03 junho 2007
Liberdade e Justiça
(também postado n'O Insurgente) A justiça é um conceito comparativo, na medida em que confronta uma situação real (facto) com uma situação ideal (valor). Este confronto ocorre no contexto de que cada indivíduo vive inserido numa determinada sociedade. A justiça é por isso uma avaliação comparativa que diz respeito às interacções entre indivíduos, isto é, factos resultantes de acções individuais versus valores individuais (que podem ser partilhados ou não). Se alguém nasce homem e gostava de ser mulher, não se pode dizer que lá por ele ser homem que isso é uma injustiça. Falta a acção causal de outra parte; ou mesmo do próprio, na medida em que a sua natureza não depende dele.
A natureza da justiça está por isso intimamente ligada com a natureza dos valores. Aqueles que acham que os valores são intrínsecos e revelados/descobertos, tenderão a ter a mesma abordagem perante a justiça, achando-a absoluta. Os que acham que são subjectivos, tenderão a ver a justiça numa óptica puramente relativa. Isto dando de barato que pelo menos nos factos haverá terreno comum. Lamentavelmente não faltam exemplos de quem acha que os factos são democráticos e que estão sujeitos a consensos ou “negociação”. A minha opinião é que é possível identificar um conjunto de valores objectivos que podem servir de base a uma justiça racional, sempre contextualizada. Bem como que em matérias onde não é possível estabelecer essa objectividade também não faz sentido falar de justiça. Se alguém gosta de Rachmaninoff e este ano nenhuma orquestra na cidade se dispõe a tocar uma peça sua, não é uma questão de justiça.
Estes valores objectivos começam necessariamente na vida de cada um. Quem está morto não dá valor a nada. A partir daqui será possível estabelecer uma hierarquia de valores onde necessariamente, partindo da vida, virão a liberdade (para viver e agir) e a propriedade (enquanto fruto da acção individual). Será então possível chamar à defesa destes valores objectivos “direitos naturais”. Isto é, “direitos naturais” são as normas racionalmente definidas que permitem ao indivíduos viver em sociedade preservando os valores objectivos fundamentais de todos. Por isso, vida, liberdade e propriedade precedem a justiça. Tal como o indivíduo precede a sociedade e os valores precedem o direito.
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23 maio 2007
Novidade! Agora embalado às fatias! Mais prático!

Esta conversa de arranjar classificações e sub-classificações para encontrar a "quinta pata do gato" do liberalismo pode ser útil para discussões preciosistas sem grande propósito prático, mas para o que interessa, i.e. disseminação de ideias, muito pouco.
Eu cá sou um liberal-miguista, que de vez em quando acorda individualista, noutros dias municipalista-comunitarista, normalmente minarquista mas com ocasionais recaídas anarquistas, sempre fruto dos disparates estatistas de terceiros; há dias em que dá-me para ser mais conservador e outros em que, pasme-se, dou comigo a ter umas ideias relativistas-hedonistas.
Só há uma coisa mais constante no meu dia-a-dia: a falta de pachorra para entrar numa onda de "sou mais liberal que tu, toma, toma". Com tantas oportunidades para direccionar as baterias para o outro lado, não percebo esta atracção pelo tiro-no-pé.
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30 abril 2007
Distopia Regressiva
(também postado n'O Insurgente)
Anthem foi o segundo livro de Ayn Rand, publicado em Inglaterra no ano de 1938, depois de Rand não ter conseguido um editor nos EUA (facto que mostra bem o ambiente cultural americano da altura). Colocado entre
We The Living (
sobre o qual escrevi aqui) e os muito mais conhecidos
The Fountainhead e
Atlas Shrugged,
Anthem tem a característica curiosa de estar, por lapso do editor, no domínio público nos Estados Unidos, que na altura não eram signatários da Convenção de Berna sobre
copyrights. Por esta razão, está
disponível livremente na internet.
Em termos filosóficos,
Anthem é uma espécie de prelúdio às ideias subjacentes aos livros seguintes de Rand. Em termos literários é uma peça muito interessante, tanto ao nível da forma, com uma linguagem que se aproxima de um "poema em prosa", como na sua singulardade: É a única obra do género - ficção futurista que representa sociedades distópicas - e do periodo - antes de ser conhecida a verdadeira extensão da falência dos sistemas socialistas - onde o futuro é mostrado como uma distopia regressiva, civilizacionalmente decadente, consequência directa das ideias dominantes na sociedade nele descrita. O mais conhecido
Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell, escrito dez anos mais tarde, apresenta uma distopia progressiva (um futuro cientificamente avançado); tal como
Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou
Nós, de Ievgueni Zamiatine.
Podemos dizer que a opção de Rand por esta evolução incomum é, em primeiro lugar, visionária e, em segundo, solidamente fundamentada nas ideias por ela defendidas. Estas ideias são, resumidamente, que o mal é impotente e que a criatividade individual é a fonte do progresso da humanidade.
O mal é impotente porque é, pela sua natureza, parasitário. A força do mal só é conseguida à custa da capacidade produtiva do bem e da cooperação forçada de indivíduos inocentes. Contudo, a prazo as pessoas deixam de dar o seu melhor sob coação. Rand não chegou a assistir ao colapso final da União Soviética, mas teria certamente reservado um "
I told you so" para quem a criticou, cinquenta anos antes, por "não perceber" como a gestão científica da economia soviética haveria de resolver todos os problemas do mundo.
A criatividade individual é a fonte do progresso da humanidade porque são indivíduos livres e independentes que produzem saltos qualitativos na evolução do conhecimento; saltos esses que permitem a produção de utensílios, produtos e ideias que aumentam o nível de vida e o bem estar das pessoas. Não é nenhum indivíduo em particular que domina todo o conhecimento; todos "bebem" nas ideias uns dos outros para derivar os seus contributos. No entanto, são esses saltos individuais, essencialmente anárquicos na medida em que não seguem nenhum plano, que permitem o progresso; qualquer tentativa de planear centralmente o progresso acaba por secar a criatividade individual, levando a um colapso regressivo.
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04 fevereiro 2007
Racionalismos que a Razão desconhece
Neste post sobre relativismo moral, João Miranda escreve:
"Como já explicou aqui o Pedro Arroja, a partir do momento em que se aceita que a ética tenha base racional, abre-se a porta para que as premissas fundamentais do sistema ético sejam o resultado da vontade de quem as escolhe."
A "explicação" referida relaciona-se com estes (
1,
2,
3) posts no
Blasfémias. Coloco o termo entre aspas porque na verdade não penso que Pedro Arroja tenha explicado o que lhe é atribuído. Quanto mais não seja porque essa afirmação ou é uma tautologia ou uma contradição nos termos, dependendo de como se definem os conceitos. Além de que as suas ideias perdem clareza quando fala de Ayn Rand, de quem parece ter uma qualquer
pet peeve. Em vários posts nos últimos meses referiu Rand em termos críticos (talvez mesmo
cáusticos); sem, no entanto, apresentar argumentos críticos fundamentados às suas ideias - referir o
affair idiota que ela teve com um homem 25 anos mais novo não me parece a melhor forma de questionar a "Moral Racional" do Objectivismo. Ainda por cima porque existem pontos perfeitamente passíveis de crítica no pensamento de Rand, bastava ter escolhido um deles.
Mas voltando ao que interessa. Se aceitarmos que a realidade existe e que a podemos perceber, pelo menos em parte, através da nossa faculdade racional alimentada pelos nossos sentidos, e que esta, mesmo que falível, não altera a natureza da realidade, temos base para avançar. Quem não concorda escusa de ler o resto. Pode ir ali a baixo atirar-se para a frente do primeiro autocarro que passar. Com um bocado de sorte pode ser que tudo seja uma ilusão e o autocarro na verdade não esteja lá.
Definição Importante Nº 1: Razão é a capacidade que um ser humano tem de perceber e sistematizar a realidade.
Não é: (i) A "certeza/correcção", como por exemplo na frase "o Pedro tem razão e tu estás errado"; (ii) A "verdade/nirvana", como por exemplo na frase "o Zé Manel está a meditar no Tibete para alcançar a Razão".
Definição Importante Nº 2: Moral Racional (objectivista) é um código ético que pode ser explicado racionalmente e que está dependente do contexto e do sujeito na avaliação dos valores.
Não é: (i) o Racionalismo de Platão, Descartes, Kant ou outro qualquer; (ii) um código intransigente que uma vez identificado se impõe a todos; (iii) um código
à la carte onde cada um escolhe as suas premissas.
Nos dois extremos clássicos do debate sobre a natureza dos valores temos de um lado intrinsicistas, que acham que as premissas fundamentais a que se refere o João Miranda são reveladas ou descobertas, quer por intervenção divina, pela "tradição" ou "história"; do outro os subjectivistas/relativistas, que acham que essas premissas fundamentais dependem de cada indivíduo (hedonistas), ou que são indiferentes ou impossíveis de determinar (nihilistas). Adicionalmente, há os objectivistas, que rejeitam ambas as posições clássicas (mais detalhes
aqui,
aqui e
aqui).
Por definição, os intrinsicistas não aceitam a ideia de uma base racional para a ética. A citação acima do João Miranda não se aplica a eles. Sobram os relativistas e os objectivistas.
Para os relativistas, a base do seu sistema ético é por definição o resultado da sua própria escolha, caso contrário não eram relativistas. Logo, a citação acima é tautológica. Isto aceitando que os relativistas partem de uma base racional e não emocional, aleatória ou caprichosa na sua concepção da ética.
Já para os objectivistas, as premissas fundamentais terão de ter as raízes na realidade. Isto é, os valores estão alicerçados em factos observáveis e inteligíveis graças à nossa capacidade racional. Por isso, a citação é uma contradição nos termos. Para eles, as premissas não são matéria de escolha. A sua grande diferença para o intrinsicistas, contudo, passa pelo reconhecimento de um elemento subjectivo que tem um papel no
ranking relativo dos valores. Ou seja, a natureza de "bem" ou "mal", ou de "certo" ou "errado", é objectiva; mas a importância relativa na comparação directa entre dois valores diferentes depende do contexto do sujeito avaliador.
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