Crónica do Migas
Beneath this mask there is more than flesh. Beneath this mask there is an idea, Mr. Creedy, and ideas are bulletproof.

04 abril 2007

 

Idiosincrasias para todos os gostos


Quando se quer, à força, demonstrar um determinado esteriótipo de estimação, é fácil cair na contradição e disparate. Pedro Arroja está de tal modo empenhado em provar as suas ideias esteriotipadas e deterministas relativamente às diferenças das sociedades predominantemente católicas face às protestantes que escreveu isto:
"Quem vive num país de língua inglesa [surpreende-se por vezes] por encontrar nessa língua palavras ou expressões que são directamente importadas do português. (...) A mais terrível, porém, é a expressão auto-da-fé. Não existe tradução em inglês, escreve-se em inglês como no seu original português. Aparentemente, nunca passou tal ideia pelo espírito anglo-saxónico, é uma ideia inconcebível nesta cultura, e por isso não existe uma expressão própria para a traduzir."
Deve ser por isso que os anglo-saxónicos são tão aversos ao negócio, tendo importado o termo entrepreneur de França, esse baluarte do capitalismo; ou porque são pessoas tão fatalistas e deprimidas, que precisaram de ir buscar joie-de-vivre ao francês para explicar a coisa. Estou certo que alguma investigação iria desenterrar inúmeros exemplos, quer num sentido ou outro.

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27 março 2007

 

Not so different, after all


Parece que as "autoridades livres" não são tão diferentes dos "sujeitos livres" como levariam a pensar alguns preconceitos.

Num estudo da americana National Highway Traffic Safety Administration (referenciado aqui) chega-se à conclusão que:
  1. 80% dos condutores mais jovens admitem conduzir acima do limite de velocidade;
  2. 60% dos condutores acima dos 65 anos de idade admitem igual comportamento;
  3. 68% dos condutores acham que o excesso de velocidade dos outros é um perigo para si próprios;
  4. 75% dos condutores acham que "algo deve ser feito" para reduzir as violações dos limites de velocidade;
  5. 40% dos condutores admitem passar ocasionalmente semáforos que acabaram a transição amarelo-vermelho nesse instante
A mesma entidade refere que o numero de mortos nas estradas americanas durante 2005 foi de 43443. Em igual periodo, morreram nas estradas portuguesas 1091 pessoas (Fonte: DN). Em termos relativos, isto significa que nas estradas americanas as mortes relativas ao número de habitantes estão 33% acima do que ocorre em Portugal.

Isto para não falar na britânica AA (o ACP lá do sítio), que foi criada com o objectivo de ajudar os seus membros a defenderem-se das operações policiais de detecção de excessos de velocidade...

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28 fevereiro 2007

 

Autoridade e Gaiatadas



"Os meninos importam-xe de deixar-xe de gaiatadas e tejes adolexentes e de paxar a rexpeitar a autoridade!?"


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29 janeiro 2007

 

O Cordeiro Sacrificial


É um bocado assustador pensar que muitas pessoas levam uma vida de conflito interno ou auto-infligida miséria por causa de um código moral cuja verdadeira natureza se esconde por trás de equívocos semânticos. A maior parte das pessoas tem normalmente uma predisposição benevolente para quem as rodeia; familiares, amigos ou vizinhos (embora a grande concentração populacional tenha contribuido para um enfraquecimento destes últimos laços). Essa benevolência é cautelosamente extendida a outros, no contexto de uma relação continuada entre cada indivíduo e o ambiente social que o rodeia. As explicações para essa predisposição são múltiplas, desde genéticas a sociológicas, e podem ser entendidas racionalmente.

Acontece, contudo, que a elevação desta benevolência a obrigação ou imperativo, ou a padrão moral pelo qual se medem todas as virtudes, veio criar um conflito insanável entre a primeira necessidade de cada indivíduo - preservar a vida e alcançar a felicidade - e a necessidade que o mesmo tem de agir por forma a preservar os seus valores. Este conflito é materializado, nos nossos dias, pela confusão etimológica entre benevolência, generosidade ou boa vontade, de um lado, e altruismo ou "vida em função dos outros", por outro. O termo "altruismo" foi criado por Augusto Comte para descrever as tendências naturais humanas que visam ajudar os outros. No fundo, a tal benevolência natural. No entanto, filosoficamente, o termo positivo foi apropriado por aqueles que colocam o colectivo acima do indivíduo, dando-lhe um sentido normativo. Desta apropriação, resulta que os atributos explícitos e reiterados do altruismo, enquanto código ético, são:
  1. Cada indivíduo tem uma obrigação moral de colocar sempre o interesse dos demais acima do próprio;
  2. Uma acção só é moralmente certa se as suas consequências forem globalmente positivas para todos excepto quem age;
  3. A virtude só é atingida por quem "vive para os outros".
Perante estes atributos, fazer do altruismo padrão moral, isto é, afirmar que só são bons, virtuosos ou merecedores de reconhecimento aqueles que o praticam, é equivalente a dizer:
  1. Para ser moral e virtuoso, um indivíduo precisa que existam pessoas mais infelizes ou desgraçadas que ele;
  2. Se as acções de um indivíduo beneficiam-no, então são imorais;
  3. A existência em isolamento é imoral ou, na melhor das hipóteses, amoral.
Neste contexto, surgem uma série de consequências lógicas que tornam a existência humana em um pesadelo debaixo do código moral altruista: A acção individual que por via do trabalho, da produtividade ou da criatividade, resulta na própria felicidade, é mal vista. O seguro é ser imprestável e miserável, potenciando aos outros a oportunidade de serem virtuosos. Cria-se um freerider problem de dimensões faraónicas, onde cada um tem o incentivo perverso de ser o mais necessitado. Consequentemente, os resistentes que insistem em alcançar o seu potencial tornam-se cordeiros sacrificiais no altar da mediocridade.

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29 novembro 2006

 

Individualismo


No Blasfémias, Pedro Arroja escreveu uma série de posts a descrever o impacto de algo a que ele chama "individualismo do menino-mimado" no caminho para o desenvolvimento de um estado autoritário e, no longo prazo, falido. O ponto é válido e bem argumentado. Trata-se da identificação de um problema de freeriding, ou problema do "pendura", semelhante ao que eu descrevi há alguns meses, embora Pedro Arroja tenha optado por uma análise mais centrada no aspecto de "cultura dominante" e de corporativismo.

Contudo, a forma como o termo "individualismo" é usado nos posts parece-me perigosa filosoficamente. Algumas afirmações nas caixas de comentários parecem confirmar a minha preocupação de que este uso do termo pode ter efeitos perversos. Algo na linha do que acontece com expressões como "capitalismo selvagem" e "justiça social", exemplos de falácias; uma que pretende denegrir o capitalismo ao colar-lhe um termo pejorativo e atributos que não fazem parte da sua definição; outra que tenta derivar legitimidade, a partir do conceito original, para o adjectivo que lhe é anexado.

O "individualismo do menino-mimado", na mesma ordem de ideias, não é individualismo. Não me parece difícil entender que do mesmo modo que o conceito de "liberdade" não atribui a alguém o direito a violar a "liberdade" de outrém, o conceito de "individalismo" não inclui acções que implicam a dependência do sujeito face a terceiros. Alguém ser individualista significa defender interesses próprios, na expectativa de que outros façam o mesmo. Ou como escreveu Ayn Rand em Atlas Shrugged: "I swear—by my life and my love of it—that I will never live for the sake of another man, nor ask another man to live for mine."

O que Pedro Arroja descreve são pessoas a tentarem obter benefícios indevidos à custa de outras; pessoas que acham que os outros lhes devem luxos e privilégios; pessoas que acham que os seus caprichos são direitos legítimos. Esta pessoas não são individualistas. O individualista pretende independência para criar, não para roubar; para ter controlo sobre a sua vida, não sobre a vida de outros; para interagir em pé de igualdade com outros indivíduos, não para os dominar.

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